Turismo de aventura desponta como uma modalidade para o Vale

Silvio Zonatto (61) poderia até ser um personagem do cinema. Sexagenário, em uma idade que a maioria dos seus pares costuma pendurar a chuteira, ele é quase que um Indiana Jones do Vale do Taquari. Campeão de várias modalidades radicais e dono de um refúgio da correria da cidade. Em uma propriedade de 67 hectares, na pequena Vespasiano Corrêa, ele comanda o Eco Refúgio Explorer. Pioneiro na promoção de turismo de aventura, Zonatto recebe quem busca se desligar do mundo e entrar em sintonia consigo mesmo. Ele opera em uma área em ascensão na região.

Zonatto recebe em sua residência amantes da adrenalina e do verde, aqueles que compartilham do seu gosto de estar alheio ao mundo moderno, longe até mesmo do sinal de telefonia. “É um problema e uma solução. O sinal de telefone aqui é péssimo. Ruim para os negócios, e bom para quem deseja se encontrar com a paz.”

Na casa, que já foi do Exército Brasileiro na época da construção da Ferrovia do Trigo, ele mora com a esposa Denise e o filho Alvaro. O trio divide as tarefas de uma estalagem que funciona em sistema de hostel, um modelo já difundido na Europa.

O hóspede chega, se acomoda em um dos quartos e tem a infraestrutura mínima para o conforto – lençóis e cobertas quentinhas, banho quente e café da manhã. As demais refeições são por conta e risco do aventureiro. “A cozinha é de uso coletivo. Nós entregamos limpa e recebemos limpa. Assim que tem que ser”, decreta Zonatto.

O espaço está com a família dele desde que o Exército se desfez da área. O anfitrião das montanhas de Vespasiano Corrêa inaugurou o turismo de aventura em 1995, quando também ficou mundialmente conhecido. É que, vizinho às terras dele, está o Viaduto 13. Símbolo da engenharia e da força militar das décadas de 1950, 60 e 70, a ponte de concreto por onde passa o trem tem também o maior vão da América Latina e segundo maior do mundo: 143 metros de decida livre.

Na época, Zonatto entrou para o Livro dos Recordes ao fazer o rapel, hoje oferecido nos pacotes turísticos do Eco Refúgio. Atualmente, só a descida do Viaduto Mala Rijeka, que fica em Montenegro, ex-República Socialista da Iugoslávia, é maior do que o V13. O viaduto europeu tem 198 metros de altura.

Mas não é o “V13”, como carinhosamente é chamado, que é o protagonista do Eco Refúgio. É o conjunto da obra que faz ainda maior o terreno. O local possui cachoeiras, corredeiras, trilhas ecológicas, túneis por onde passaram os trens do trigo e uma imensidão de verde. Para qualquer lado que se mira, comum é ver o tapete tecido pela natureza que contorna a formação sinuosa de Vespasiano Corrêa.

Alternativa real

O economista Carlos Giasson acredita que o turismo rural ou de aventura possa ainda não ter uma significante importância monetária na receita dos municípios, mas representa um ganho extra em determinadas propriedades do Vale, especialmente pela característica geográfica regional. “São locais onde a natureza está preservada. Muitos visitantes vêm atrás disso. O próprio difícil acesso aos municípios, onde não há nem asfalto, ajuda a valorizar o ineditismo natural.”

Conhecendo o Vale do Taquari, Giasson crê na viabilidade e na expansão do negócio em meio ao campo. E o caminho de desenvolvimento se dá, segundo ele, sob dois aspectos. Primeiro, o financeiro que traz recursos e mantém no campo quem pensava em sair para a “cidade”. O segundo, ligado ao fator ecológico. Os espaços de turismo ecológico e rural precisam ser preservados para cativar visitantes. “Para que tudo isso funcione, o poder público precisa promover ações de treinamento e incentivo à instalação de negócios dessa natureza.”

Espaço de descobertas

Embora pareça mesmo o “refúgio” da civilização, a propriedade de Zonatto tem vizinhos. Eles viram atração ao povo da cidade de concreto. “Tem pais de família que apresentam aos seus filhos a vaca criada pelos meus vizinhos como a fábrica do leite de caixinha que eles tomam todo o dia. Muitos se surpreendem que o leite venha dela, que o ovo saia da galinha”, diz, em meio ao riso. Os arredores do Eco refúgio também são pedagógicos e, na carona do empreendimento da família Zonatto, podem tornar-se investidores em um mercado promissor: o turismo rural e de aventura.

Mais que vizinhos, o Eco Refúgio oferece cinco tipos de esportes radicais. Um deles é o rapel no V13; outro, a caminhada em trilha até as cachoeiras; a descida de corredeiras – rafting – é uma das atrações de inverno, quando o nível dos rios sobe e deixa mais “emocionante” a travessia em botes; o rapel de cascatas, também conhecido como casquede; e a trilha e descida de montanha. Em um dia, segundo Zonatto, dá para praticar dois esportes.

Quem se aventura pela ferrovia do trigo também encontra belezas naturais. Os túneis, cortados dentro do relevo das montanhas de Vespasiano Corrêa, escondem paisagens naturais e quedas d’água. Vez por outra, o trem passa. O coração dispara no recuo dos trilhos do trem. Turismo de aventura pulsa forte no peito dos aventureiros.

Na estalagem da casa da família Zonatto podem ser abrigadas 25 pessoas ao mesmo tempo. Os quartos têm beliches e camas de casais. Para quem não acredita em fantasma, existe o aposento de número seis. Nele, o ex-presidente Ernesto Geisel dormiu, em 1976, quando a ferrovia foi inaugurada. “Há quem vê o vulto dele”, brinca Zonatto.

Das janelas da ala da direita, a paisagem ao amanhecer revela um espetáculo natural. A medida em que o sol vai subindo no céu, a montanha vai sendo iluminada. No refúgio, o sol nasce quase perto do meio-dia, e se põe rapidinho também.

Quem tem problema para dormir também se resolve na estalagem. O único barulho que se ouve vem das quedas de água, uma sinfonia relaxante que transporta o turista para dentro da natureza.

Saiba mais

  • Como o contato de telefone é difícil, o Eco Refúgio mantém canais alternativos de comunicação. Eles estão no Facebook e o site. O telefone, caso funcione, é o (51) 9387-0483. O local recebe famílias, grupos de empresas, amigos e casais – com e sem filhos.
  • As diárias individuais custam a partir de R$ 50. O check-in e o check-out não são tão rígidos. O hóspede entra a hora que chega e, depois do meio-dia do dia seguinte, se quiser, pode sair. Segundo o proprietário, os horários não são tão “apertados”. Os passeios guiados e os esportes radicais são negociados em separado com Zonatto.

Em questão

A turismóloga do Consórcio Público Intermunicipal para Assuntos Estratégicos do G8, Diuly Cristina Mähler (31), acredita no desenvolvimento por meio do turismo ligado à natureza. Ela, que atua junto aos municípios de Boqueirão do Leão, Canudos do Vale, Cruzeiro do Sul, Marques de Souza, Forquetinha, Santa Clara do Sul, Progresso e Sério, crê na atração de renda e permanência do jovem no campo.

1 – Os municípios do Vale do Taquari exploram de forma correta seus potenciais turísticos ou ainda há espaço para crescimento?
Diuly Cristina Mähler – Eu acho que a gente está no caminho, já começamos diversas ações. Nos municípios do G8, por exemplo, nós temos um curso que forma condutores para turismo de aventura. Muitos deles, ao formarem-se, abriram empresas para oferecer o turismo nessa área. Eu avalio essa medida como um passo importante rumo ao desenvolvimento. Por outro lado, não existe uma demanda de turistas suficientes para manter esses condutores formados em uma única atividade. Isso faz com que eles tenham outras ocupações. Mas essa é uma questão que mudará a médio e longo prazo. O caminho é investir na qualificação.

2 – O turismo de aventura é um conceito novo?
Diuly – O turismo de aventura é recente. Já a prática de trilhas naturais ocorre há muito tempo, só que, de forma comercial e com regramento, esse trabalho é novo. O Brasil, inclusive, é referência na qualificação do turismo de aventura. No meio natural existem vários riscos. Por isso existe a necessidade de um curso de formação. A segurança precisa ser enfatizada. Quem promove uma atividade em meio à natureza precisa ter equipamentos de segurança de qualidade e, sobretudo, conhecer as características naturais do terreno.

3 – Além do desenvolvimento econômico, o que mais o turismo de aventura agrega aos municípios?
Diuly – Eu aposto no turismo como uma forma de manter os jovens no interior. Eu nasci no interior, em Boqueirão do Leão, formei-me e optei por ficar aqui. O turismo de aventura desenvolve o município e mostra o que há de bom nas cidades pequenas, no tempo em que valoriza o homem do campo.

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