Tuberculose avança por falta de ações

A resistência do poder público em aderir ao projeto de Sanidade de Controle e Erradicação da Brucelose e Tuberculose desenvolvido pela comarca de Arroio do Meio desde 2009 eleva o risco de epidemia na região.

O caso mais recente ocorreu no Bairro Carneiros, em Lajeado, onde 46 vacas leiteiras foram diagnosticadas com a doença e sacrificadas nos últimos 12 meses. O produtor Roberto Francisco Scheren calcula um prejuízo de R$ 150 mil. Por dia a produção era de 300 litros, vendidos ao preço de R$ 0,90 o litro. “Estamos sem renda.”

Critica o baixo valor da indenização pago pelo Fundo Estadual de Sanidade Animal (Fundesa), cerca de R$ 1 mil por animal. “Cada vaca estava avaliada em R$ 5 mil. Quem pagará esta diferença? É fácil cobrar do produtor e não ter recursos para ressarcir as perdas e manter ele na propriedade.”

A Inspetoria Veterinária quer manter a propriedade vazia por até dois anos. Scheren teme pela sucessão, pois sem alternativa de lucro o filho de 18 anos deve buscar emprego na cidade.

Segundo o médico-veterinário, Marco Antônio Reckziegel, a identificação do foco ocorreu em abril de 2013, quando a propriedade esteve entre as sorteadas no Estado para o levantamento epidemiológico de tuberculose bovina. Foram cinco animais sacrificados no primeiro mês. Depois, ocorreram novos testes com intervalo de três meses, somando mais de 41 sacrifícios em um ano. “Restaram dois animais sadios.”

Poder público é negligente

A descoberta de novos casos mancha a imagem da região, conhecida como o Vale dos Lácteos. Conforme um dos coordenadores do Procetube, Oreno Ardêmio Heineck, enquanto produtores apontam falhas na forma de indenizar os animais condenados e o valor cobrado pela realização dos testes, municípios demonstram pouco interesse em desenvolver políticas para prevenir e combater a doença nas propriedades.

Na região apenas seis cidades (Arroio do Meio, Travesseiro, Capitão, Coqueiro Baixo, Nova Bréscia e Pouso Novo) desenvolvem ações para erradicar as doenças. No Vale outras 13 encaminharam pedido para iniciar os testes. No Estado 35 municípios demonstraram interesse em fazer parte do Procetube, programa estadual de sanidade.

Para Heineck, o saneamento do rebanho é um processo irreversível devido à saúde do próprio produtor e por exigência do mercado. A meta é sanear todo Estado em oito anos. “O leite sem certificação não terá mais mercado em cinco anos.”

Destaca o pagamento extra de R$ 0,015 por litro ao produtor pela qualidade do leite. Quanto à indenização por animal sacrificado, o valor chega a R$ 2 mil. Para Heineck, esse montante é dividido entre Fundesa, Mapa e município. “É um excelente valor se considerarmos que o bovino infectado não vale nada.”

Custo da certificação

São realizados três testes anuais. O valor é dividido entre o produtor e o município, 40 e 60% respectivamente. Após o terceiro exame em caso de nenhum animal ser diagnosticado com a doença, será necessário apenas um teste anual. Se algum bovino tiver a doença terá que ser abatido em 30 dias e os exames serem realizados novamente.

Segundo Heineck, o custo por bovino chega a R$ 14,40 para o produtor. “Se for uma vaca que dê 10 litros/dia, produzirá 3.050 litros/ano. A certificação terá custado R$ 0,005/litro de leite.” Nos anos seguintes com apenas um teste esse valor cai para R$ 4,80.
Propriedades que possuem animais para engorda passam a fazer somente um teste anual e recebem um documento específico (não é certificado) declarando que estão livres de tuberculose e brucelose.

Recursos do Fundesa

Para garantir o recebimento de recursos por meio do Fundesa, o agricultor deve solicitar a inspeção de um veterinário na propriedade. Depois da vistoria e abate dos animais, se condenados, deve ser encaminhada a documentação com todos os registros referentes aos laudos e testes para o Fundesa. A partir daí serão feitas as avaliações dos dados.

Conforme o presidente do Fundesa, Rogério Jacob Kerber, em média, o prazo é de 30 a 60 dias para o produtor receber o recurso. Eventual demora decorre da devolução do processo pela documentação, informações e procedimentos incompletos. O valor por animal varia entre R$ 500 e R$ 1 mil, de acordo com sua raça, registro, peso e classificação.

Em 2012 foram sacrificados 1.123 bovinos leiteiros no valor de R$ 1.172.400,00. Na pecuária leiteira a indenização é de R$ 1 mil a R$ 2 mil por animal. Na pecuária de corte é de R$ 319 por animal. No ano passado, as indenizações passaram de R$ 1,4 milhão.
Para produtores que aguardam pelo recebimento do recurso, Kerber diz que é possível acompanhar o processo pelo 3212-6163 ou encaminhar e-mail para fundesa@via-rs.net.

Rebanho protegido

A família Riva, de Teutônia, aderiu ao programa de sanidade em 2009. Na época, foram investidos como teste R$ 2,5 mil, um passo importante para dar continuidade a um processo seguro de produção de leite.

O rebanho de gado leiteiro da propriedade produz em média 1,2 mil litros por dia e, por estar certificado, livre de doenças, ganha uma bonificação da cooperativa que compra o produto da família. O benefício ajuda nas despesas anuais da propriedade para fazer o controle dos animais. “Isso rende até R$ 6 a mais por dia”, comenta o produtor Adelar.

Governo acena com solução

O Procetube é um programa lançado pelo governo estadual, coordenado pela Secretaria da Agricultura, Pecuária e Agronegócio, que busca o controle e a erradicação da brucelose e tuberculose bovina. Baseia-se no projeto desenvolvido há quatro anos pela comarca de Arroio do Meio.

Por meio do programa, será fornecida às propriedades uma certificação estadual, informando que as regiões estão controladas e não livres da brucelose e tuberculose.

Para um município ou região começar o trabalho é necessário elaborar um plano de trabalho e fornecê-lo para a avaliação do comitê técnico do governo. Após aprovado o plano, as cidades devem ter todas propriedades saneadas e 100% do rebanho testado a cada 90 ou 120 dias.

O governo espera que esse controle permita a qualificação dos produtos para se conseguir melhor preço de venda, reduzir perdas em produtividade e também melhorar a prevenção de zoonoses.

A projeção é de que em oito anos todas as propriedades que criam bovinos para a produção de leite e carne no Estado estejam certificadas. Durante o ano passado, foi feito um inquérito epidemiológico para mapear o registro de brucelose e tuberculose nos rebanhos bovinos do Estado.

De acordo com dados da Secretaria de Agricultura, o Estado conta com um baixo índice de incidência dessas doenças (menos de 1% do rebanho), mas elas devem ser evitadas, pois causam diminuição da produtividade e podem levar à morte dos animais. Foram examinados 11 mil animais, de 1.065 propriedades gaúchas.

Amvat discute problema em reunião nesta quinta-feira

A Amvat realiza assembleia geral nesta quinta-feira, dia 24, em Anta Gorda. O encontro começa às 16h30min, no Clube Comercial Carlos Gomes, antecedendo a abertura da 5ª Festleite.

Conforme o presidente da entidade, Sidnei Eckert, a falta de recursos limita a adesão de novos municípios ao programa de sanidade. Em Arroio do Meio, o investimento no programa desde 2009 soma R$ 1 milhão. “É um trabalho conjunto entre produtor, indústria, Executivo e governo. Quem ganha é o consumidor com um produto de mais qualidade.”

Lamenta as falhas na fiscalização do processo produtivo, desde a propriedade até a indústria. Durante a reunião, a sanidade será um dos pontos debatidos entre os prefeitos, o ex-secretário da Agricultura Luiz Fernando Mainardi e o deputado federal Alceu Moreira.

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