Sucessão rural é desafio para a manutenção da agricultura

O almoço e o jantar de todo dia não dependem apenas do dinheiro para comprar o alimento. Dependem da decisão de pessoas como Lisane Messer Dummel (32) em permanecer no campo e garantir a continuidade da agricultura familiar. Moradora de Linha Wink, interior de Teutônia, Lisane atua na produção de leite e dá continuidade ao trabalho da família na propriedade de cerca de 50 hectares. Mais de 550 pessoas com histórias semelhantes à dela participaram, na terça e quarta-feira, dias 25 e 26, do 5º Congresso Estadual da Juventude Trabalhadora Rural, no Parque do Imigrante, em Lajeado.

A sucessão rural foi um dos temas que nortearam os debates do encontro promovido pela Federação dos Trabalhadores na Agricultura no Rio Grande do Sul (Fetag). Mais do que um assunto restrito às pessoas ligadas ao setor rural, a continuidade da agricultura familiar diz respeito a toda a população. Hoje, quase 80% dos alimentos que chegam à mesa dos brasileiros vêm da agricultura familiar.

Dar visibilidade à questão e elencar prioridades para articular políticas públicas que beneficiem o jovem do campo estiveram entre os objetivos do evento. “A sociedade tem que ter consciência da importância da agricultura familiar para o país”, destaca o coordenador regional da Fetag no Vale do Taquari, Luciano Carminatti.

Lisane concorda e resume a ideia quase em um provérbio: “Se o agricultor não planta, a cidade não almoça nem janta.” Na propriedade da família, são quase mil litros de leite vendidos, diariamente, para uma cooperativa. A produção aumentou depois que Lisane retornou ao interior para administrar o negócio ao lado dos pais e do irmão, cinco anos depois de deixar a localidade de Linha Wink em busca de um trabalho na cidade.

Além de reforçar a mão de obra no local, a volta de Lisane resultou em investimentos como a sala de ordenha. Auxiliado por máquinas automatizadas, o trabalho da família é menos exaustivo do que antes, apesar de a produção ser maior. Técnicas aprendidas em cursos oferecidos pelo sindicato também aperfeiçoam o serviço.

Sete anos depois de dizer sim à sucessão rural, Lisane tem certeza da sua escolha: a renda é satisfatória, há liberdade para administrar o próprio negócio e o tempo de trabalho. A qualidade de vida e a possibilidade de produzir os próprios alimentos reforçam a preferência por morar e trabalhar no meio rural.

Profissão: agricultor

Pouco mais do que 12% da população de 16 a 29 anos do Rio Grande do Sul vivem na zona rural, de acordo com o Censo Demográfico 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Para o coordenador da regional da Fetag no Vale do Taquari, Luciano Carminatti, os jovens que decidem permanecer no interior e dar sequência à produção agrícola familiar têm perfil empreendedor. “São pessoas que veem na agricultura familiar uma oportunidade.”

Diferente do que acontecia nas décadas passadas, para eles, a agricultura não é um destino, mas uma escolha e uma profissão. “São trabalhadores que se profissionalizam para desenvolver suas propriedades”, observa Carminatti. De acordo com ele, a maioria dos jovens que atua agricultura familiar possui Ensino Médio, cursos técnicos e capacitações relacionadas ao negócio. Além disso, ele utilizam os meios de comunicação e a internet para buscar informações e se atualizar. “Muitos estão fazendo faculdade”, afirma.

O estudo e a profissionalização fazem com que o jovem proponha inovações na propriedade e busque qualificar os processos. Isso exige a necessidade de uma visão empresarial. “Hoje não tem como atuar na propriedade rural sem ter uma visão empresarial. É preciso fazer que ela seja o seu negócio”, salienta.

Êxodo X sucessão rural

Casos como o da família de Lisane Messer Dummel representam, atualmente, cerca 60% das propriedades rurais da região que possuem sucessão rural. Na gangorra com o êxodo rural, o total de famílias agricultoras que terão sequência em seu negócio está diminuindo. “Em um período curto vamos ter menos do que a metade da população rural”, alerta o coordenador da regional da Fetag no Vale do Taquari, Luciano Carminatti. Para ele, a saída dos jovens do interior, que ocorre em todo país, é acentuada em uma região com oportunidades de emprego na indústria, como o Vale do Taquari.

Além disso, a falta de políticas públicas específicas para a agricultura familiar e falta de garantia de renda estimulam os jovens do interior em busca de outros horizontes. Carminatti explica que a maioria das propriedades da região é especializada em uma cultura. Apesar de desenvolver a produção, ela limita as atividades e deixa a família dependente em situações de crise econômica dos setores.

Além da instabilidade da renda, o coordenador regional da Fetag cita a falta de um preço mínimo e de seguro para a produção. “É preciso ampliar as políticas públicas para dar sustentabilidade para a propriedade”, defende.

Para Carminatti, a educação também é um ponto fundamental para impedir o esvaziamento do campo. Segundo ele, a urbanização da educação exige que os jovens saiam do meio rural para estudar. “Dificilmente aquele jovem se motiva a voltar. Além disso, quando sai, ele perde o vínculo com sua cultura, sua comunidade.”

Outro fator que afasta os jovens da agricultura, segundo o coordenador regional da Fetag, são as limitações na transição da propriedade. Em uma família com dois filhos, a tendência é de que a propriedade fique sob cuidado de apenas um deles. O outro, acaba buscando nova oportunidade de trabalho. Durante o congresso que reuniu jovens trabalhadores rurais nesta semana, o acesso à terra e reforma agrária, vistos como possibilidade de solução para o assunto, estiveram entre os eixos temáticos discutidos.

Incentivo para permanecer no campo

Ao todo, o Vale do Taquari tem quase 26,5 mil famílias agricultoras que atuam, especialmente, com criação de aves e suínos, produção de leite e agroindústrias. A garantia de sucessão rural só está presente em 60% delas, segundo estimativa da Fetag. Westfália supera a média, com cerca de 65% das propriedades com a continuidade do trabalho garantida pelos herdeiros.

Para o gerente do escritório regional da Emater Lajeado, que atende os vales do Taquari e Caí, Luiz Henrique Bernardi, o exemplo do município pode ser atribuído a dois principais motivos. Um deles é a influência da escola agrícola, onde filhos dos agricultores estudam e adquirem conhecimento que depois é aplicado na propriedade. O outro são as políticas públicas que asseguram recursos para investir nas propriedades, entre elas, o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf), que conta com uma linha de crédito específica para os jovens agricultores.

Em Estrela, um projeto da Prefeitura autoriza o município a bancar, a partir do próximo ano, os juros do Pronaf em financiamentos feitos por jovens rurais.

Para Bernardi, programas de incentivo à habitação rural e a chegada da internet na zona rural também contribuem para criar as condições necessárias para que as pessoas morem no interior. “É uma soma de vários processos para dar tratamento igual para quem mora na área urbana e rural.”

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