Sistema colha e pague inova produção de orgânicos em Forqueta

Toda semana, a nutricionista Ana Paula Dexheimer vai de Lajeado, onde mora, à localidade de Forqueta, no interior de Arroio do Meio, adquirir produtos utilizados na empresa de alimentação saudável. O destino? A Agroecologia Ferrari. Propriedade de família Ferrari, a horta orgânica é mais do que um local para comprar alimentos livres de agrotóxicos.

Com o sistema de colha e pague implantado no local, Ana Paula e todos os visitantes que chegam à propriedade de meio hectare recebem uma cesta e um chapéu de palha e vão para a roça. Em meio aos canteiros, eles colhem as hortaliças, as frutas e os legumes que pretendem levar para casa.

Enquanto colhe cebolas e feijão-de-vagem, no início da tarde de segunda-feira, Ana Paula aprende sobre a época certa para a colheita e o “ponto” dos alimentos. Proprietária da horta e idealizadora do Colha e Pague, Márcia Inês Sbruzzi Ferrari (45) acompanha o cliente e explica sobre o controle biológico de pragas utilizado na produção dos orgânicos. Os insumos são substituídos pela plantação de chás e flores e pela manutenção do “inço” em meio aos canteiros – eles ajudam a preservar a umidade do solo e atuam como habitat dos inimigos naturais, impedindo que eles ataquem as plantas.

Iniciado há cerca de um ano, dentro do roteiro turístico Caminhos da Forqueta, o Colha e Pague da família Ferrari atrai visitantes diariamente. Além dos clientes fixos, como Ana Paula, pessoas de outros municípios e grupos de visitação chegam à propriedade, localizada no distrito de Arroio do Meio para conhecer a novidade. “Só de colocar o chapéu, pegar a cesta e tirar a foto eles já gostam”, conta a proprietária da horta.

Para Márcia, o sucesso do Colha e Pague, que duplicou as vendas na propriedade e ultrapassou os ganhos dos produtos comercializados para supermercado, feira do produtor e alimentação escolar, é a culminância do trabalho de 11 anos com a horta orgânica. Além do incremento nas vendas, a inovação no agronegócio incorporou no dia a dia dos Ferrari uma série de procedimentos de controle gerencial. Monitorar as entradas e saídas de caixa, calcular o preço de venda dos alimentos por quilo e organizar a propriedade de forma adequada para receber visitantes estão entre os aprendizados obtidos por meio do programa Juntos para Competir.

Parceria entre o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar) e a Federação da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul (Farsul), o projeto ofereceu a Márcia e outros moradores do distrito de Forqueta capacitações para alavancar a rota turística.

A consultoria segue até, pelo menos, o próximo ano. A ideia é fazer com que, até lá, os empreendedores tenham condições de “tocar” o negócio sozinhos. “Nosso trabalho é munir o pessoal de ferramentas de planejamento de mercado para que consigam se estabelecer como empreendedores”, explica o gestor de projetos de Agronegócio do Sebrae Vales do Taquari e Rio Pardo, Valmor Mantelli Júnior.

Inovação na lavoura

A vontade de inovar, que fez com que Márcia deixasse o trabalho na propriedade rural de lado, em alguns momentos, em busca de conhecimentos para aprimorar a venda de alimentos orgânicos, é, hoje, uma necessidade para o crescimento da agricultura, de acordo com Valmor Mantelli Júnior. Assim como a indústria e o comércio passam por transformações, o campo também precisa de mudanças. “A inovação é fundamental para o desenvolvimento da agricultura, para garantir o futuro e manter as pessoas no campo, assim como é inconcebível que uma empresa fique por dez anos sem investimento em maquinário e mudanças, o agricultor precisa inovar.”

Além do acesso à tecnologia – tanto as do dia a dia, como a internet, como ferramentas que facilitam o processo produtivo -, a visão empresarial é imprescindível à agricultura. “Cada vez mais, o agricultor terá que ser um empresário, um gestor do negócio dele. Terá que saber a hora de investir e de planejar”, destaca o gestor de projetos do Sebrae.

A implantação do Colha e Pague e a assessoria do Juntos para Competir levaram mudanças para a rotina na Agroecologia Ferrari. Além do trabalho na lavoura, o gerenciamento da horta inclui participação em reuniões e cursos, controle de vendas e custos, planejamento estratégico e cálculo do preço de produção. Tudo está na ponta do lápis.

Para dar conta do trabalho, a família toda entrou no serviço: Márcia e o marido, José Carlos Ferrari (50), são os responsáveis pelo plantio e a manutenção das hortaliças e dos legumes, além dos controles gerenciais. A filha Helen Ferrari (13) é incumbida da divulgação do negócio, em uma página no Facebook, onde são postadas fotos das visitas ao Colha e Pague.

Na opinião de Mantelli, a visão de mercado e a proatividade dos Ferrari caracterizam o potencial empreendedor necessário a quem quer inovar. Ganhadora do prêmio Sebrae Mulher de Negócios Ciclo 2013, na categoria Produtora Rural, Márcia garante estar realizada, apesar dos diversos compromissos e das atividades na horta. “Quando a gente gosta do que faz não se sente cansado. A gente faz o trabalho com amor e as pessoas percebem isso”, afirma Márcia.

Orgânicos: uma tendência

Certificada há três anos pela Rede Ecovida, a Agroecologia Ferrari é uma das cinco propriedades orgânicas familiares certificadas no Vale do Taquari. Segundo o engenheiro agrônomo da Emater, Marcos José Schäfer, além disso, a região conta com cerca de 800 famílias em processo de transição agroecológica. São agricultores que desenvolvem atividades para reduzir os agrotóxicos e substituir insumos convencionais por orgânicos, além de utilizar técnicas para converter as lavouras em produção orgânica. O processo de transição inclui, também, agricultores que já produzem de forma orgânica mas ainda não possuem certificação.

O número de propriedades em transição ou com produção orgânica ainda é tímido. Do total de 26.497 agricultores familiares do Vale do Taquari – o que inclui produção de grãos, de leite, criação de aves e suínos, entre outras atividades – , representa em torno de 3%. Apesar disso, a produção sem agrotóxicos tem sido estimulada pela procura dos consumidores e por projetos de incentivo à transição ecológica, como o Programa de Agricultura de Base Ecológica, da Secretaria de Desenvolvimento Rural, Pesca e Cooperativismo (SDR).

De acordo com o gerente regional da Emater, Luiz Henrique Bernardi, a produção orgânica pode trazer mais rentabilidade aos agricultores. Além do custo de produção ser menor, já que não há a utilização de agroquímicos, iniciativas do governo como o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e o Programa Nacional de Alimentação Escolar (Pnae) pagam até 30% a mais por produtos orgânicos. “A base do cultivo orgânico é o solo equilibrado, que dá a nutrição para a planta e não atrai pragas. A produção orgânica é sustentável porque termina com a dependência de insumos externos da propriedade”, pontua.

Para Bernardi, assim como o consumo, o cultivo de orgânicos vem crescendo e reflete um opção de vida, em busca de uma alimentação mais saudável. “A produção orgânica passa a ser um modo de vida da pessoa. Ela passa a produzir qualidade e com qualidade de vida, já que deixa de manusear os venenos.” Além da certeza de consumir um produto livre de agrotóxico, a possibilidade de colher o próprio alimento atrai pessoas ao Colhe e Pague da família Ferrari. Às vezes, os visitantes têm seu primeiro contato com uma plantação. “É uma terapia. As pessoas adoram e isso dá a maior satisfação”, comenta a proprietária da horta, Márcia Ferrari.

você pode gostar também Mais do autor

Comentários

Carregando...