Semana do Alimento Orgânico atenta para perigo dos agrotóxicos

Entre uma garfada e outra são ingeridos mais do que nutrientes e vitaminas. Substâncias químicas utilizadas na produção de alimentos chegam à mesa e são absorvidas pelo organismo humano em pequenas doses, mas que alcançam índices assustadores: em média, cada brasileiro consome, por ano, 5,2 quilos de agrotóxico. O assunto está em evidência na Semana do Alimento Orgânico, lembrada entre 22 e 28 de maio.

Enquanto a ingestão do veneno passa despercebida, os efeitos dela na saúde variam conforme o princípio ativo, a dose absorvida e a forma de exposição. De acordo com a médica Adriana Skamvestsakis, do Centro Regional de Referência em Saúde do Trabalhador da Região dos Vales (Cerest), estima-se que um terço dos alimentos consumidos diariamente está contaminado por agrotóxico. “Prescrevemos uma alimentação saudável, mas muitas vezes é no prato que está o perigo.”

A profissional esclarece que, apesar da ideia de que apenas os trabalhadores rurais estão suscetíveis ao veneno, o contato indireto com as substâncias também é prejudicial. “O consumo de alimentos com resíduos de agrotóxicos tem efeitos danosos na saúde. Todos eles são tóxicos, em algum grau. A alteração na composição da planta também acontece no organismo humano”, explica.

Problema de saúde pública

Mestre em Biotecnologia e professora da Univates, a nutricionista Michele Dutra Rosolen considera que a utilização indiscriminada, o desrespeito às normas de segurança e a livre comercialização contribuem para que a intoxicação direta ou indireta com agrotóxicos seja um problema de saúde pública.

De acordo com ela, estudos mostram que os sintomas mais relatados da intoxicação aguda por agrotóxicos incluem tonturas, tremores, dor de cabeça, dor abdominal, fraqueza e paralisias. “Também há indícios de que os agrotóxicos estariam associados a cânceres, infertilidade e más-formações congênitas”, alerta.

Adriana também lembra que a maioria dos problemas crônicos são multifatoriais, e o consumo de agrotóxicos em pequenas doses, todos os dias, contribui para o adoecimento. “Dificilmente, se tivermos um problema daqui a 30 anos, faremos a relação dele com a alimentação. Mas ela pode ter influência.”

Opção pelos orgânicos

Para o engenheiro agrônomo Marcos José Schäfer, assistente técnico regional de manejo de recursos naturais da Emater/RS-Ascar, aos poucos, a consciência de que o produto “limpo” é melhor tem levado consumidores a optarem pelos alimentos orgânicos – aqueles produzidos sem o uso de agrotóxicos, adubos químicos ou sementes transgênicas. “A procura já é maior do que a capacidade de produção de agricultores que trabalham com orgânicos”, afirma.

Ao lado do marido Nestor (56), Rosane Sprandel (47) investe na produção de frutas orgânicas. Para ela, o cultivo de alimentos sem agrotóxico é mais do que uma oportunidade de mercado: é uma forma de oferecer qualidade de vida. As quase cem árvores de cítricos, pêssego, pêra e banana plantadas em 2015 e devem produzir daqui a dois anos, na propriedade rural no Bairro Moinhos D´Água, em Lajeado. Paralelo a isso, uma estufa deve abrigar a produção de duas mil mudas de morango, nos próximos meses.

Quando o negócio estiver a pleno vapor, a intenção de Rosane é abrir a propriedade para que os clientes possam, além de adquirir produtos orgânicos, colherem as frutas e vivenciarem um hábito que faz parte da vida da sua família. “Sempre nos alimentamos bem. Queremos oferecer isso para as pessoas. É em cima disso que estamos batalhando, com muita esperança e alegria.”

Em vez de veneno, flores e chás

No pomar orgânico de Rosane Sprandel, as árvores frutíferas dividem espaço com chás, flores e plantas que promovem a adubação e atuam como inseticidas naturais. São opções ao uso do defensivos agrícolas químicos. Os agentes biológicos ajudam a reequilibrar o solo – que fica degradado com o uso intensivo de agrotóxicos. “Tudo começa pela questão nutricional, com um solo bem equilibrado”, explica o engenheiro agrônomo Marcos José Schäefer, da Emater/RS-Ascar regional.

Rosane conta com a assistência da Emater para desenvolver a produção de frutas orgânicas. Na estufa de morangos, que está sendo construída, as mudas ficarão suspensas, plantadas em substrato. A ideia da agricultora é aproveitar o espaço embaixo das bancadas para plantar alface e tempero verde. Junto delas, estarão espécies de chás e flores como a tagete, cujo cheiro ajuda a espantar insetos.

Entre as árvores, boldo, citronela, orégano e pimentão garantem que as plantas frutíferas cresçam saudáveis, longe das pragas. Outro método utilizado por Rosane foi a plantação de crotalárias. A planta possui raízes grossas que provocam sulcos profundos na terra e auxilia a adubação natural da terra.

Em questão

Nutricionista e professora da Univates

1 Como os agrotóxicos chegam ao ser humano?
Michele Dutra Rosolen – Um dos meios de entrar em contato com esses agentes é o consumo de alimentos com resquícios de agrotóxicos. Ainda, há a possibilidade do contato direto com o veneno, quando o agricultor faz a aplicação na lavoura sem utilizar os equipamentos de proteção individual. Parte da aplicação dos agrotóxicos atinge o solo e as águas (superficiais ou subterrâneas) e tudo isso culmina em sérios prejuízos à saúde e em alterações significativas nos ecossistemas.

2 Quais os alimentos com maior carga de agrotóxico?
Michele – Segundo dados da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), de 2011, o ranking de alimentos contaminados por agrotóxicos inclui em primeiro lugar o pimentão (92%), seguido pelo morango (63%), pepino (57%), alface (54%) e cenoura (50%). O único alimento que saiu ileso de agrotóxicos foi a batata, que obteve resultado satisfatório em 100% das amostras analisadas.

3 Quais os reflexos do consumo de agrotóxico na nossa saúde?
Michele – O mecanismo de ação dos agrotóxicos dependerá da sua classificação e do componente químico pelo qual é formado. Como exemplo, os organofosforados estão presentes nos inseticidas e atuam no organismo humano inibindo um grupo de enzimas chamadas de colinesterases. Essas proteínas atuam degradando a acetilcolina, um neurotransmissor que é responsável pela transmissão do impulso nervoso. Assim, quando está inibida, essa enzima não consegue degradar a aceticolina, levando a um distúrbio conhecido como crise colinérgica, responsável, principalmente, pelos sintomas descritos nos episódios de intoxicação. Além desses, a classe dos organoclorados, também presentes nos inseticidas, possui a característica de acumular-se nas células gordurosas do organismo humano e animal, podendo provocar efeitos danosos à saúde. Além disso, são muito estáveis e podem persistir no ambiente e no organismos por até 30 anos.

Abra o olho

Os agrotóxicos podem provocar três tipos de intoxicação:

  • Aguda – os principais sintomas surgem rapidamente, algumas horas após a exposição;
  • Subaguda – sintomas como dor de cabeça, fraqueza, mal-estar, dor de estômago e sonolência aparecem aos poucos e podem ser confundidos com sinais de outras doenças;
  • Crônica – surgimento tardio, após meses ou anos, de danos irreversíveis, como paralisias e câncer.
    Além das intoxicações, o uso de agrotóxicos pode ocasionar abortos, fetos com má-formação, alergias, distúrbios respiratórios, endócrinos, gastrointestinais, reprodutivos e neurológicos; além de acentuar o risco de suicídio. Os grupos mais vulneráveis aos efeitos dos defensivos químicos são trabalhadores rurais, crianças, gestantes, lactentes, idosos e pessoas com a saúde debilitada.

Fonte: Cerest da região dos Vales

Procure o selo

O selo de produto orgânico é a garantia que o consumidor está adquirindo um alimento sem agrotóxicos. De acordo com o engenheiro agrônomo Marcos José Schäefer, da Emater/RS-Ascar regional, fora dos supermercados, é possível adquirir orgânicos em feiras rurais. No entanto, apesar de muitos produtores trabalharem sem agrotóxico, nem todos possuem a certificação. “A compra ocorre baseada na confiança entre produtor e consumidor.”

você pode gostar também Mais do autor

Comentários

Carregando...