Perdas chegam a 34% devido a intempéries

Com a colheita de trigo encerrada, confirma-se o péssimo cenário devido à atuação do El Niño. Segundo a Emater/RS, a safra atual ficou em 1,49 milhão de toneladas. Se levada em conta a estimativa inicial, de 2,269 milhões de toneladas, as perdas chegam a 34,38%. Embora a produtividade média obtida neste ano (1.693 kg/ha) fique 19,48% maior que a de 2014 (1.417 kg/ha), a produção total ficou 10,87% menor que o ciclo anterior (1,670 milhão de t).

Segundo o engenheiro agrônomo, Claudio Dóro, da Emater Regional de Passo Fundo, essa aparente contradição se explica pela significativa redução na área plantada. Esse último levantamento, realizado na segunda quinzena de novembro, indica que o estado semeou apenas 879,5 mil ha, contra os 1,180 milhão plantado no ano passado: uma redução de 25,48%.

Os prejuízos ocorreram devido às intensas precipitações, mais concentradas no período do plantio e próximas à colheita, comprometendo a formação inicial das lavouras e a qualidade final do produto. “Além do excesso de umidade, houve queda de granizo e ventos fortes em áreas menores, com formação de geada tardia, quando a cultura estava em floração/formação do grão, estágio suscetível ao frio.”

Preço desestimula

José Orlando Horn, de Colinas, deixou de cultivar o cereal há quatro anos. Na época, mesmo com o pH ideal para panificação, o valor proposto pelo moinho foi de R$ 17 pela saca. “O farelo de trigo custava R$ 19. Vendi tudo para vizinhos alimentarem o gado. Se for para ter prejuízo, prefiro não plantar nada no inverno.”

A família se dedicou à cultura durante 40 anos, com uma média de 20 hectares por ciclo. Com a terra desocupada, consegue antecipar o plantio de soja que este ano ocupa 25 hectares. A expectativa é de colher até 1,6 mil sacas. Na última safra, negociou o grão ao preço médio de R$ 65. “Espero ganhar R$ 80 com a alta do dólar.”

No Vale do Taquari, foram cultivados 2,2 mil hectares nesta safra. A produtividade chegou a 1.721 quilos por ha, cerca de 66% menor do que o projetado inicialmente. Com a qualidade prejudicada, a maior parte do cereal foi destinada para confecção de ração e acabou derrubando o preço.

De acordo com o técnico regional da Emater de Lajeado na área de Organização Econômica, Alano Tonin, muitos produtores já optaram no último ciclo pela semeadura de aveia ou implantação de pastagens para engorda de animais em áreas antes destinadas para trigo devido à boa valorização da carne.

Para ele, o retorno do fenômeno La Niña, a partir do segundo semestre de 2016, conforme previsão divulgada na semana passada, pode beneficiar as culturas de inverno como o trigo. “Mas o que define se a área aumenta ou reduz é o preço. Esse está muito abaixo do esperado pelo produtor.” O La Ninã se caracteriza por períodos mais secos (outono e inverno) e com temperaturas mais baixas.

Qualidade despenca

Do trigo analisado pelo escritório regional em Passo Fundo, apenas 5% é considerado bom, com características como o pH que permitem a venda aos moinhos. O presidente da comissão do Trigo da Farsul, Hamilton Jardim, estima terem sido colhidas apenas 400 mil toneladas de trigo com qualidade adequada para panificação. O resto será destinado para confecção de bolachas, massas ou ração animal.

Isso fez o preço despencar. Enquanto o cereal para panificação está cotado em R$ 33 a saca, o grão para outros usos chega aos R$ 20, de acordo com Jardim. “O custos subiram devido à alta do dólar. Duas quebras sucessivas desestimulam e a tendência é de nova redução na área em 2016.” O prejuízo financeiro estimado pela Farsul ultrapassa R$ 1,2 bilhão.

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