Para amenizar efeitos climáticos na agricultura, alternativa é diversificar

Quando ouvia notícias sobre as previsões do El Niño para 2015, o lajeadense Marcos Davi Purper (38) não imaginava que o fenômeno climático teria tantos reflexos na sua produção. As longas sequências de dias de chuva fizeram com que “faltasse” sol aos alimentos produzidos pela família, na propriedade no Bairro São Bento – o que dificultou o desenvolvimento das plantas.

A produção de morangos – principal atividade da Horta Purper – caiu mais de 70%, em alguns meses. A colheita semanal dos 14 mil pés da fruta, que, em geral, resulta em 200 quilos de morango, foi de apenas 30 quilos, em algumas semanas. A pouca incidência de sol sobre as plantas atrasa seu desenvolvimento, além de propiciar a criação de fungos e o apodrecimento das plantas. Tudo isso, por que choveu demais – uma das características do El Niño.

O fenômeno climático consiste no aquecimento das águas do Oceano Pacífico Equatorial e altera a distribuição de calor e umidade em várias partes do planeta. De acordo com o Centro de Informações Hidrometeorológicas (CIH) da Univates, isso causa mudanças no tempo e clima em diversas regiões do mundo.

Conforme a coordenadora Fabiane Gerhard e a auxiliar técnica do CIH, Carolina Heinen, no Rio Grande do Sul, o El Niño resulta em maiores volumes de chuva, principalmente durante a primavera, e em menor quantidade de dias com temperaturas extremas.

Os reflexos do fenômeno na agricultura impactaram a renda de famílias produtoras rurais, como a Purper, e também pesaram no bolso dos consumidores. “Em geral, vendemos o morango de R$ 13 a R$ 15 o quilo, na Feira do Produtor Rural, mas teve momentos em que precisamos vender a R$ 20 o quilo. Em alguns mercados, chegou a custar quase R$ 40”, relata o agricultor.

Além do morango, frutas como melão e melancia e vegetais como couve-flor, alface e brócolis tiveram seu desenvolvimento prejudicado pela chuva intensa e contínua. Na propriedade no Bairro São Bento, a produção de brócolis chegou a cair pela metade.

Variedade para enfrentar o clima

O que amenizou o impacto do El Niño sobre a renda da família Purper foi a diversidade de culturas. Em cerca de três hectares – um deles coberto por 11 estufas – são produzidos mais de 40 tipos de alimentos. Variedades como beterraba, cenoura, batata-doce e aipim se beneficiaram com o excesso de chuvas no ano. “Se uma coisa dá errada, temos outras opções.”

Na opinião do engenheiro agrônomo Marcos José Schäfer, o exemplo compartilhado por Purper é a principal forma de encarar os efeitos climáticos na agricultura. “Diversificar a produção é uma forma de fugir dos riscos climáticos. Se uma cultura não der, há outra”, ressalta o assistente técnico regional em manejo de recursos naturais da Emater/RS-Ascar. Outro fator importante, na visão do profissional, é o seguro da produção e da estrutura e do maquinário, que, em algumas ocasiões, são estragados por temporais.

Para Schäfer, sem as medidas que amenizam os impactos de chuvas intensas, secas e temporais, eles podem inviabilizar a produção agrícola. “Esses eventos climáticos podem tirar a capacidade de investir no próximo ano e deixar as famílias sem renda”, observa. “Sempre que acontece o El Niño é um ano atípico, mas o que se tem observado é que os eventos extremos têm sido cada vez mais extremos e frequentes”, alerta.

Queda na produção de pêssego chega a 80%

O pêssego está entre as frutas que mais sofreram com o impacto do clima, neste ano. Segundo o assistente técnico regional da Emater/RS-Ascar, Marcos José Schäfer, a estimativa é de uma perda de 70% a 80% na produção, causada por chuva demais, frio de menos e geada tardia. “Houve um veranico no inverno, que estimulou a brotação. As plantas estavam muito frágeis e houve geada nos dias 11, 12 e 13 de setembro”, lembra o engenheiro agrônomo.

Conforme Schäfer, com a diminuição da chuva, a partir do fim de outubro, algumas culturas tiveram tempo de se reequilibrar. Nas produções de milho, soja, frutas cítricas e pastagens, o comportamento do clima na estação mais quente do ano é o que vai definir se produções serão prejudicadas, aumentando o preço dos produtos. “Tudo vai depender de como será o verão. É importante que chova, mas é preciso que haja estiadas, com sol. Assim, poderá ser um ano bom.”

Em questão

1 Quais foram as consequências do El Niño nos últimos meses, na região?
Fabiane Gerhard – A atuação do fenômeno El Niño, nos últimos meses, resultou em maior quantidade de dias instáveis na região, em elevados volumes de chuva mensal, maior frequência de temporais e menor quantidade de dias com temperaturas extremas, pois a nebulosidade impede que as temperaturas se elevem ou baixem muito.

2 O El Niño continua no próximo ano?
Fabiane – De acordo com informações divulgadas por centros de meteorologia que acompanham o aquecimento das águas do Oceano Pacífico Equatorial de perto, o El Niño está, no momento, com forte intensidade e deve seguir até o verão 2015/2016.

3 Qual a previsão para este verão?
Fabiane – A tendência para o verão 2015/2016 é de precipitação de chuva dentro e acima da média, e temperaturas em torno da normalidade. Além disso, deveremos ter alguns dias com sensação de abafamento, pois em dias instáveis, as temperaturas não ficam tão elevadas quanto em tempo seco, porém combinadas com a umidade do ar elevada, resultam na sensação intensa de abafamento.

Chuva contínua e pouco sol: os efeitos no campo

Apesar de necessária ao desenvolvimento das plantas, a chuva sem trégua, por muitos dias, prejudica o crescimento e a qualidade delas. O engenheiro agrônomo Marcos José Schäfer explica que, com o excesso de chuva, há muitos dias sem luminosidade, o que provoca a diminuição da fotossíntese – processo por meio do qual a planta produz a energia necessária para a sua sobrevivência. Assim, os vegetais se desenvolvem mais devagar, ficam com a aparência mais feia e a produção tende a ser menor.

Além de “apodrecer” as plantas, a chuva constante por muitos dias também cria um ambiente propício para fungos e bactérias. “O sol é um excelente antibiótico”, compara Schäfer. Além disso, ele comenta que, com o desequilíbrio causado pela chuva, insetos são atraídos para as plantações.

Com o excesso de chuva o solo fica compactado, e o desenvolvimento das plantas em um solo “duro” é dificultado pela falta de aeração. Quanto mais solta a terra, mais oxigênio. Com a compactação da terra, muitas sementes nem chegam a germinar.

Em alguns casos, a chuva contínua também impede a colheita dos alimentos. Em culturas como a do feijão – cuja colheita ocorre a partir do fim de dezembro -, se ela for realizada depois que o cereal chegar no “ponto”, ele começa a germinar dentro da vagem, o que gera perdas na produção.

O setor leiteiro também pode sofrer o impacto do El Niño na região. De acordo com Schäfer, por conta da chuva intensa e contínua, nem sempre é possível colher as pastagens no momento certo e deixá-las secar, o que reflete na qualidade do alimento para as vacas. Assim, pode-se ter um volume menor de leite, além do aumento no custo de produção, pois precisa-se recorrer à ração e outras formas de alimentação concentrada para complementar a dieta dos animais.

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