O Vale que sobrevive à crise econômica

Refrigerante, balas ou derivados de suínos. Independentemente do produto que passa pelas esteiras, as indústrias do Vale do Taquari mantêm o ritmo de produção e trabalham para enfrentar – ou melhor, para superar – a crise econômica. Na última segunda-feira, dia 25, celebrou-se o Dia da Indústria. Em alusão à data, Bebidas Fruki, Docile Alimentos e Cooperativa Languiru mostram a força da região no motor principal da economia regional.

A fabricante de bebidas, por exemplo, procura um novo local para se instalar, ampliando sua área em 40 vezes e podendo ingressar em um novo ramo: a fabricação de cerveja. Enquanto isso, a empresa especializada em doces negocia o aluguel de um depósito de cinco mil metros quadrados, em Estrela, para dar conta de armazenar sua produção. Já a cooperativa teutoniense aumenta sua rede de varejo na busca de crescer acima da inflação em 2015.

Formas diferentes de pensar, mesmo modo de investir: as três indústrias trabalham com foco no futuro.

Planejamento

Para a economista Cíntia Agostini, o diferencial dessas três empresas – e de outras indústrias do Vale – é o planejamento. “Seus gestores têm consciência de que a economia do Brasil não está legal, mas que melhorará no futuro. Por isso, planejam a longo prazo. É a clareza de que há períodos de crise, mas que não se pode perder o foco”, acredita.

Na opinião do representante da Câmara de Indústria, Comércio e Serviços do Vale do Taquari (CIC-VT) para Assuntos Econômicos, Rogério Wink, as três indústrias destacam-se em seus setores, com processos, tecnologia e empreendedores que investem e acreditam em seus negócios. “Essa realidade é muito importante para a economia do Vale, pois essas empresas geram renda e oportunidades. Essa marca de excelência acaba afetando positivamente os demais setores regionais, estimulando investimentos locais e de fora”, conclui.

Vale centralizado

Empresário e economista, Wink percebe características estruturais importantes que servem como base para o fortalecimento da indústria na região. “Uma das principais é a educação diferenciada, que alia escolas municipais/estaduais e escolas comunitárias ao ensino universitário, criando uma rede que forma pessoas e gera profissionais muito qualifcados. Aliadas a isso, a localização do Vale e sua infraestrutura acima da média criam e mantêm negócios locais sólidos e bem estruturados, atraindo empreendedores externos.”

A opinião de Cíntia vai na mesma direção. Segundo ela, a localização da região é um ponto importante no sucesso das indústrias locais por estar centralizada no Estado e contar com estradas que ligam o Vale a todo o Rio Grande do Sul. “O Brasil nasceu sobre a malha rodoviária, e uma das principais rodovias do Estado cruza toda a região, além de termos muitas vias estaduais que se ligam. Isso é um fator positivo para o Vale. Ainda temos dificuldades em áreas como energia, por exemplo, mas é menor do que em outras regiões, porque nossos empreendedores se mobilizaram e lutaram por mais qualidade aqui”, argumenta.

Superando a crise

Cintia Agostini esclarece que as principais atingidas pela crise foram as empresas dependentes da política governamental, como construtoras, que recebem recursos federais para obras, e montadoras, que utilizam incentivos fiscais para aumentar a venda de automóveis.

“No caso das empresas do Vale, nenhuma dessas três indústrias depende da política pública para funcionar. A crise também afeta a região, mas a dinâmica está sendo pensada de forma diferente. Para quem exporta bastante, como a Docile e a Languiru, a alta do dólar tem sido vantajosa, porque o mercado externo tenta superar a crise e volta a consumir nossos produtos. Elas estão sabendo aproveitar o momento.”

Segundo Rogério Wink, a orientação da CIC-VT para os empresários é para que façam os ajustes necessários em suas organizações a  m de preservar as operações até que o cenário macroeconômico melhore. “Cada empresário tem que fazer sua ‘lição de casa’, revendo estruturas, reavaliando fatores de custos e fortalecendo seus pontos fortes, com ganhos de produtividade e aproveitamento máximo das suas potencialidades – se for o caso, com investimentos, pois a crise também gera oportunidades”, destaca.

Direção da Fruki acredita em oportunidade

Ao planejar a expansão para a próxima década, a fabricante de água, energéticos e refrigerantes do Vale do Taquari projeta incluir a cerveja em seu cardápio. Além disso, nos próximos 12 meses, promete investir no varejo para consolidar a marca no Rio Grande do Sul.

Segundo o diretor-presidente, Nelson Eggers, serão investidos R$ 30 milhões em dois Centros de Distribuição (CD). O primeiro será construído em Pelotas, com a missão de levar os produtos para a Região Sul. O segundo centro foca Caxias do Sul e o consumidor da Serra Gaúcha.

Lá, o mercado é promissor para a Fruki. A estimativa é de que o CD atenderá uma população estimada em um milhão de consumidores. “Com isso, teremos condições de dar sequência ao nosso plano de expansão e consolidar a venda de bebidas no Estado”, pontua Eggers.

O próximo passo da companhia será construir uma nova planta industrial em uma área 40 vezes maior do que o parque fabril atual, sediado em Lajeado. Nela, serão montadas linhas de produção de refrigerantes, sucos sem conservantes e cerveja. “São pequenas ações que implantamos no cotidiano que nos blindam contra a crise. Nós vemos, neste momento conturbado da economia, a possibilidade de crescimento e a oportunidade de criar outras formas de trabalhar mais e melhor.”

Nome da empresa: Bebidas Fruki
Tempo de atividade: 91 anos
Ramo de atividade: produção de refrigerantes, sucos energéticos e envase de água mineral
Mercado: foco no mercado interno gaúcho
Geração de ICMS em 2014: R$ 50 milhões
Número de funcionários: 1.000
Plantas e municípios onde atua: unidade fabril em Lajeado – Vale do Taquari, com 25 mil metros de área construída. Centro de Distribuição em Canoas (Região Metropolitana), com atuação na venda para a capital e cidades vizinhas.

Languiru planeja crescer acima da inflação

Com clientes em mais de 40 países e negócios abertos com todos os continentes, a Cooperativa Languiru, de Teutônia, implantou sistemas de gestão nos últimos anos com investimentos nas plantas industriais e ampliação na rede de varejo.

Segundo o presidente da cooperativa, Dirceu Bayer, esses investimentos permitirão um crescimento no faturamento acima da inflação em 2015. “Acreditamos que a melhor estratégia de crescimento é uma expansão homogênea e contínua, evitando aumentar muito as atividades num curto espaço de tempo”, explica.

De acordo com Bayer, o investimento na diversificação das atividades e na atuação em diferentes mercados consumidores, como regional, nacional e de exportação, é ferramenta da indústria para driblar a crise.

Com a capacidade de expansão em ritmo acelerado – além da exportação de carne de frango -, a Languiru iniciou a venda de produtos suínos para o exterior. A medida foi possível por meio da construção de um novo frigorífico de suínos, inaugurado em 2014.

Com a valorização da moeda norte-americana diante do real, vender no exterior tornou-se uma solução atraente. “Normalmente, existe um equilíbrio entre os mercados interno e externo. Isso evita a concentração de vendas em uma só região. Em termos gerais, a valorização do dólar beneficiou o volume exportado”, frisa o presidente da Languiru.

Nome da empresa: Cooperativa Languiru
Tempo de atividade: 59 anos
Ramo de atividade: agronegócio, nos segmentos de aves, suínos, leite e rações; varejo, nos segmentos de supermercados, lojas de insumos e postos de combustíveis
Mercado: exportação de 50% do volume de abate de aves e 15% do abate de suínos
Geração de ICMS em 2014: não revelado
Número de funcionários: 3.050
Número de associados: 5 mil
Plantas e municípios onde atua: quatro indústrias e associados em mais de 70 cidades gaúchas
Faturamento em 2014: R$ 970 milhões

Docile investe no setor comercial

Cerca de 200 itens compõem o portfólio de produtos feitos pela Docile Alimentos, empresa lajeadense que possui uma unidade produtiva no Nordeste e deve concluir, até outubro, a construção de uma nova fábrica fora do Estado – uma estrutura de 6,4 mil metros quadrados que está sendo erguida em Pernambuco, com um investimento de quase R$ 9 milhões.

Segundo um dos diretores da empresa, Ricardo Heineck, a Docile vendeu, nos quatro primeiros meses de 2015, a mesma quantidade (em toneladas) que havia vendido no ano passado. Em 2014, foram cerca de 24 toneladas. “Estamos estabilizados, mas o mercado está complicado. A restrição de crédito está muito grande. Existe uma crise política e uma expectativa negativa, pois as pessoas estão pessimistas em relação à economia. O medo em relação ao futuro fez com que o mercado desse uma freada maior do que deveria ser”, acredita.

Para superar esse momento, a Docile investe na área comercial, tentando ampliar sua presença no mercado e aumentando o número de pontos de venda. “O que puxa a empresa são as vendas. Se não vender, não tem como investir, nem crescer”, reforça.

Além disso, a indústria planeja a construção de um Centro de Distribuição em local que ainda será definido. “Deverá ser construído ainda este ano, mas não decidimos onde. Ao longo desses próximos meses, vamos avaliar se a gente construirá em Lajeado, Estrela ou em outra cidade da região. O que faremos, num primeiro momento, é alugar um depósito em Estrela, um pavilhão de cinco mil metros quadrados para armazenar a mercadoria, mas toda a operação continua sendo feita em Lajeado”, esclarece.

Nome da empresa: Docile Alimentos
Tempo de atividade: 24 anos
Ramo de atividade: Indústria de alimentos
Mercado: 85% nacional e 15% exportação
Geração de ICMS em 2014: não revelado
Número de funcionários: 790 no Rio Grande do Sul e 35 em Pernambuco
Número de produtos: cerca de 200 itens
Plantas e municípios onde atua: Fábrica em Lajeado – Vale do Taquari, com 20 mil metros de área construída. Unidade produtiva em Jabotão dos Guararapes, em Pernambuco. Até outubro deve ficar pronta uma fábrica, com 6,4 mil metros quadrados, também em Pernambuco, com investimento aproximado de R$ 9 milhões.

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