O futuro é agora: dejetos como geradores da energia limpa no Vale

Todo o tipo de matéria orgânica que, isolada em um processo de decomposição sem oxigênio, se transforma em energia. Essa não é só uma regra de química. Tampouco, o início de um artigo científico que fica escondido dentro de uma gigantesca biblioteca universitária. Essa é a transformação possível graças a um processo natural que começa a chamar atenção comercial para si.

Na última quinta-feira, dia 16, representantes de uma empresa especializada na produção de gás biometano e adubo estiveram na região, celebrando uma parceria futura, com olhos para a sustentabilidade: converter dejetos em energia para a cidade e para o campo.

Em 18 meses, será possível gerar em energia no Vale o equivalente ao que consomem mensalmente 233 residências de quatro habitantes cada, além de 500 toneladas de adubo orgânico a cada ciclo de 24 horas. A fluminense EcoMetano, especializada na produção de combustíveis renováveis, projeta construir uma fábrica capaz de fornecer a energia necessária aos Vales do Taquari e Rio Pardo. Para isso, conta com os substratos da produção primária, ofertados em larga escala na região.

De acordo com o doutor em engenharia ambiental e pesquisador da Univates, Odorico Konrad, o potencial energético mundial alcançado a partir da extração de biogás é imensa. Ao direcionar essa capacidade para o Vale do Taquari, o pesquisador diz que o principal componente na composição do biocombustível é dejeto animal.

Konrad explica que esse produto tem uma capacidade gigantesca de produzir energia. “Claro que temos que lembrar que essa produção não é tão fácil assim. É preciso ter viabilidade técnica e econômica, ou seja, ser sustentável. O Rio Grande do Sul como um todo, pode se constituir como uma matriz energética nessa área, sem sombra de dúvida.”

O pesquisador acredita que a energia produzida por meio dos biodigestores – equipamento onde é separado o gás do dejeto -, não é capaz de suprir toda a demanda de combustíveis do planeta. Mas é um alento à redução da queima de combustíveis fósseis e um aproveitamento do que “sobra” em um processo de produção.

Ainda não há um mapeamento das possibilidades de geração de energia com uso da biomassa. Mas a Univates realiza um estudo, em parceria com a estatal Sul Gás, para fazer o levantamento técnico das áreas do Estado onde a produção de biogás tem mais potencial. “O Vale do Taquari faz parte desse estudo, que vai produzir um atlas da biomassa no Rio Grande do Sul. Contudo, pelo que se sabe, existe uma grande fonte geradora na nossa região, assim como em várias partes do Estado.”

É atrás desse potencial que chegou ao Estado a EcoMetano. De acordo com o gerente de negócios Luiz Felipe Pereira o processamento da biomassa pode ser comparado à transformação de um passivo ambiental a um ativo energético, que, segundo ele, é abundante na região. O “produto” de Pereira, interliga o ciclo de vida de um ser e cria outro, infinitamente renovável. “Nós recebemos aquilo que seria o fim de um processo e trazemos à vida novamente, na produção de energia limpa, recurso necessário à humanidade.”

Pereira explica que a fábrica que será instalada em Estrela utiliza 85% do maquinário nacional. Além disso, trata e transforma 15 tipos de dejetos animais que vão desde as fezes de porcos, frangos e gado confinado até aos efluentes resultantes do processo industrial em agroindústrias e no processamento de alimentos.

O investimento da empresa do Rio de Janeiro é de R$ 80 milhões. Terá capacidade de gerar 35 mil metros cúbicos de gás metano, que é o gás natural purificado, combustível equivalente ao gás que tem origem no petróleo. Uma unidade de igual potencial será construída na cidade de Carlos Barbosa, cidade onde a EcoMetano já mantém investimentos.

A necessidade de tratar o dejeto

A avicultora Adelaide Olívia Scheren (47) só conseguiu instalar o aviário, com capacidade de criar 22,5 mil frangos em cada ciclo de 42 dias porque vende a sujeira dos animais. Uma vez por ano, na limpeza do espaço ela junta com trator todo o esterco e o material orgânico que forra a cama dos pintinhos e vende. Dá 200 metros cúbicos de problema.

Caso não tivesse compradores, Adelaide não poderia criar os frangos. Segundo ela, não há espaço suficiente nas terras da família em Arroio do Ouro, no interior de Estrela, para transformar em gás ou em adubo o material orgânico que sobra da criação. “Todos os nossos vizinhos compram. Eles fazem fila até”, diz em meio ao riso.

Adelaide entente que mais que se ver livre do estrume de seus frangos alojados, o tratamento correto do material é uma questão de preservação ambiental. Para ela, a chegada de mais uma empresa especializada no processamento do substrato, também avícola, vai colaborar com a tarefa de manter limpa a Terra dos filhos e netos.

Redução de químicos

Segundo o secretário municipal de Agricultura de Estrela, José Adão Braun, a instalação da fábrica será um divisor de águas também na produção agrícola.

Braun diz que, hoje, 70% da quantidade de fertilizantes utilizada na agricultura do Brasil vem do exterior e têm composição química. Com a produção local, o nível de contaminação dos solos será reduzido drasticamente. “Adubo orgânico não agride a natureza. É mais barato e ajuda na manutenção do solo.”

No Vale do Taquari não é diferente. O custo da produção tende a reduzir, elevando a rentabilidade do produtor e a segurança da relação do homem com a natureza.

A fábrica de gás biometano e fertilizantes será instalada em uma área de 20 hectares, na localidade de Linha Delfina, no interior de Estrela. Agora, a empresa precisa encaminhar a licença para construção. Depois dessa vistoria na área é feita a vistoria no projeto e acompanhamento da obra. Depois, é emitida a licença de operação.

A análise desses projetos é feita pela Fundação Estadual de Proteção Ambiental (Fepam), com quem os executivos da Ecometano já estão em tratativa.

Substituição do diesel

O empresário lajeadense Ito Lanius é parceiro da indústria do Rio de Janeiro. Segundo ele, o gás biometano que será em Estrela terá a missão, ao longo dos anos, de substituir o uso de óleo diesel no transporte nos Vales do Taquari e Rio Pardo. “Mas essa produção não deixa de ser uma alternativa à produção de energia, que tanto faz falta na região”, projeta.

A produção de 35 mil metros cúbicos de gás pode ser absorvida com facilidade nos municípios das duas regiões.

Lanius diz ainda que a instalação da indústria trás consigo um fator socioeconômico. Trata-se de um empreendimento que retira a parte “poluída” da produção primária e do meio ambiente e “recicla” em energia o que seria um problema ambiental.

Do tamanho da capital

A fábrica que será instalada em Estrela terá capacidade de processar por dia 650 toneladas de dejetos por dia. O volume sólido – de 650 toneladas – é o equivalente à produção de esgoto cloacal que a cidade de Porto Alegre produz por dia. “Isso só é possível porque nós trabalhamos com uma carga de resíduo carregada”, esclarece Luiz Felipe Pereira. A população de Porto Alegre está estimada, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 1,4 milhão de pessoas.

Saiba mais

O gás biometano, ou gás natural renovável (GNR) pode ser um substituto para o gás veicular natural (GNV), utilizado como combustível em automóveis adaptados, pode ser utilizado para aquecer caldeiras, mover máquinas e como ingrediente na produção de eletricidade, em usinas que utilizam o gás como produto.

Biogás x biometano

De acordo com a estudante de engenharia ambiental Marluce Lume, a produção de biometano, que é o gás natural com valor energético equivalente ao gás fóssil é fruto de um processo de produção anaeróbica, ou seja, sem a presença de oxigênio.

No reator, onde fica a biomassa que gera o combustível, ocorrem reações químicas, nas quais são separadas em partes. Primeiro são excluídos os nutrientes e demais propriedades do substrato em tratamento.

O biogás sai na quarta etapa do processo. Ele ainda não é o biometano. Não é o produto final para mover motores ou gerar energia. É o gás natural que contém, em parte, metano.

Segundo Marluce, que estuda a produção de biogás no Vale do Taquari, atualmente, por conta das características de alimentação, as fezes de gado confinado, suínos e frangos – nessa ordem -, são as que mais têm porcentual de metano.

Para chegar a saturação desejada – 96% de metano no gás – o produto extraído do reator precisa ser purificado. Em média, no Laboratório de Biodigestores da Univates, que é referência para Agência Nacional do Petróleo (ANP), os níveis de concentração de metano nos dejetos analisados ficam dos 60 a 70%.

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