Morte de frangos deve afetar preço nos mercados

A sexta-feira, dia 7, serviu para contabilizar um desastre anunciado. Funcionários municipais trabalharam durante todo o dia para recolher e enterrar cerca de 500 mil frangos mortos devido ao forte calor. A mortandade é resultado de um corte de energia na tarde da quinta-feira, dia 6, que durou, pelo menos, três horas em diversos municípios da região. Problema é recorrente e havia sido anunciado.

Sem eletricidade, os sistemas de ventilação e nebulização foram interrompidos, causando a morte das aves. Nenhum pode ser aproveitado, pois a contaminação do animal é rápida. Todos foram enterrados em valas abertas nas propriedades rurais. Alguns produtores utilizaram cal junto aos buracos para amenizar a contaminação do solo.

Seis municípios foram afetados devido a problemas na linha de transmissão de Lajeado, que é interligada com as subestações de Encantado e Roca Sales. Segundo a AES Sul, o incidente ocorreu em função da dilatação de um dos cabos da linha. Não teria havido sobrecarga. Mais de 20 mil clientes ficaram sem luz entre as 14h e às 16h45 de quinta-feira.

Os principais danos foram registrados no setor da avicultura. Relvado, Encantado e Roca Sales estão entre as cidades mais afetadas. Nessas três cidades foram contabilizados, até sexta-feira, dia 7, cerca de 280 mil frangos mortos. O montante corresponde a quase 30% da produção total.

Mais de 200 mil frangos morreram só em Relvado. O produtor Esequiel Bagatini, de Linha Carlos Gomes, foi quem teve o maior prejuízo. Dos 30 mil frangos criados dentro de um aviário, quase 20 mil não resistiram ao calor. Ele ficou sem eletricidade das 14h até a 0h de quinta-feira. “Quando voltou a luz no meio da tarde, queimou alguns aparelhos e a ventilação não funcionou.”

Ele estima em R$ 18 mil o prejuízo causado pela perda dos animais. A maioria dos frangos mortos estava pronta para o abate, que deveria ocorrer no sábado, dia 11. Todos estavam com uma média de 2,5 quilos e 37 dias de vida. Ele precisou de três caminhões disponibilizados pela Secretaria de Agricultura para transportar as aves até uma vala aberta a poucos metros do aviário.

Bagatini paga em torno de R$ 500 por mês na conta de luz durante o verão. A AES Sul é a operadora no local. No domingo passado, ele também perdeu cerca de 400 frangos que morreram em função da falta de luz. Ele é produtor integrado da BRF, e agora aguarda posição da empresa para saber com proceder e amenizar o prejuízo.

A Secretaria Estadual de Agricultura (Seapa) finaliza a contagem dos animais mortos, e só depois disso deve emitir nota sobre possíveis ações a serem tomadas. De acordo com Rita Dulac, médica-veterinária da Seapa, as mortes de aves no verão são corriqueiras. “A mortalidade de aves devido ao calor é bastante comum no verão. Mas este ano está atípico e o número de mortes ultrapassou o esperado para a estação.”

Ações contra concessionárias

Segundo o secretário de Agricultura de Roca Sales, Evaristo Bronca, houve perda de 30% da produção. Foram pelo menos 70 mil aves mortas na cidade. Produtores se mobilizam para pedir indenização. Empresas responsáveis pelo abate realizam laudos, para posterior encaminhamento à Justiça.

Técnico agrícola da Carrer Alimentos, Levi Cossul, relata prejuízos em 75% das propriedades integradas em Roca Sales. Sem auxílios disponíveis, recorrerão à concessionária. A JBS, com associados em toda região, pretende mover ação conjunta também contra a Aes Sul.

Arno Kauztmann, de Fazenda Lohmann, e Miguel Kummer, de Linha Sete de Setembro, ambos de Roca Sales, foram alguns dos avicultores que mais tiveram prejuízos. Kummer teve a morte de quase 12 mil frangos. Isso representa 25% da produção total de 50 mil aves daquela propriedade.

Cita que vivenciou pela primeira vez a situação após atuar mais de 19 anos no ramo. Com apoio da empresa responsável pelo abate, pedirá indenização. Projeta ainda a compra de um gerador, para pelo menos um dos três aviários.

“Não produziremos mais no período”

Em Linha Garibaldi, pelo menos outros três produtores foram afetados. Jorge Rossoni registra a morte de 6,2 mil aves. O suficiente para encher um caminhão truque. Os animais tinham 38 dias, seriam carregados em uma semana. “Não produziremos mais em janeiro e fevereiro, para evitar prejuízos.”

Ele relata ter presenciado uma situação semelhante há dois anos. Na época, morreram 3,5 mil aves e, até hoje, não receberam nenhum auxílio. Descartam a compra de um gerador, devido ao alto custo. Passaria de R$ 70 mil, diz.

O encantadense Neudi de Souza teve a perda de 7,5 mil aves. Em dois aviários, cria 31 mil aves. Pela primeira vez em 20 anos passa por essa situação. Teme por novas quedas de energia, sem aviso prévio, perto da data de carregando do lote. Assim como a maioria dos produtores, reclama da precariedade dos postes de energia.

Aumento de preço no mercado

Para a Associação Gaúcha de Avicultura (Asgav), a mortandade de animais neste verão terá reflexo para o consumidor final. De acordo com o diretor-executivo, José Eduardo dos Santos, além das mortes, problemas na alimentação dos frangos em função da alta temperatura já indicavam prejuízos.

“Se o calor seguir dessa forma por mais duas semanas, teremos reflexos fortes nos preços dos produtos nos mercados.” Conforme a entidade, as mortes podem reduzir em até 15% o abate de aves no Estado. A Asgav deve interceder no auxílio aos produtores. Segundo Santos, antes mesmo de quinta-feira, já havia uma média de 10% de mortandade em outras regiões do Estado.

A Federação dos Trabalhadores na Agricultura no Rio Grande do Sul (Fetag) também acompanha o caso. Conforme o tesoureiro da entidade, Sérgio de Miranda, é preciso maior incentivo aos produtores. “As empresas e o governo precisam auxiliar, por exemplo, na compra de geradores.” Ele também acredita em reflexo nos valores da carne vendida nos mercados.

Em nota oficial, a BRF avisa que está realizando levantamento de prejuízos causados a produtores integrados. A empresa informa que em casos de danos ocasionados pelo não fornecimento de energia elétrica, a responsabilidade cabe à concessionária de energia local. A BRF deve dar suporte nas tratativas entre integrados e concessionárias.

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