Mesmo com a agenda apertada, eles conciliam trabalho e lazer

Na mesma empresa há 30 anos, Valmor Scapini gerencia cerca de 650 funcionários, viaja constantemente a trabalho e é o vice-presidente da comissão organizadora da 20ª Expovale; já Marcos Mallmann, dono de um empreendimento de 25 anos, acumula uma jornada de trabalho que pode chegar a 16 horas por dia, divididas entre a empresa e as entidades de que participa, como o Sindilojas e o Clube Sete de Setembro; juiz há mais de dez anos, Luís Antônio de Abreu Johnson dirige o Fórum de Lajeado, é o magistrado titular do Juizado da Infância e Juventude e da Vara de Família, e ainda representa o Judiciário local em dezenas de eventos por mês; enquanto isso, Ito Lanius divide sua rotina entre cuidar de sua companhia e ajudar na gestão de entidades como a CIC Regional, a Fundação Pró-Rio Taquari e a Associação Lajeadense Pró-Segurança Pública (Alsepro).

Mesmo com as agendas lotadas, eles mantêm a vontade de trabalhar e a organização necessária para cumprir todos os compromissos. Apesar da rotina intensa, não se consideram workaholics – ou, em bom português, viciados em trabalho. Para designar essa nova “categoria” de profissionais, que dedica-se fortemente à profissão e ao voluntariado, mas consegue estabelecer horários para o lazer ao lado da família, especialistas têm debatido sobre uma nova nomenclatura: os worklovers.

Workaholic ou worklover?

Como explica a psicóloga e master em Management por Harvard, Sâmara Irumé, “worklover” é um termo que tem ganhado popularidade, e define, basicamente, as pessoas que gostam do que fazem e buscam um sentido mais profundo em sua profissão. Porém, para entender o conceito, é necessário refletir sobre a realidade dos últimos 70 anos.

“Há diferenças entre o entendimento do workaholic nos Estados Unidos e no Brasil. No inglês, workaholic é a pessoa que trabalha excessivamente; aqui, é a pessoa que deixa de lado sua família e lazer para trabalhar. Na verdade, acredito que isso seja fruto de uma época. Surgiu no pós-guerra, com a geração baby boomer (nascidos entre 1946 e 1964 nos países mais atingidos pela Segunda Guerra Mundial). Essa característica de muito trabalho vem, em grande parte, da reconstrução dos países destruídos pelo conflito”, explica.

Em contrapartida, as gerações X e Y – nascidas entre as décadas de 1960 e 1980, e entre 1980 até metade da década de 1990, respectivamente – viram seus pais trabalhando muito, mas não aproveitando tanto os momentos de lazer, e buscaram seguir um movimento diferente. “Disso vem os ‘worklovers’, pessoas que buscam um sentido em seu trabalho. E com a globalização, recebemos muitos recursos que facilitam a nossa escolha. Isso tornou o trabalho muito mais interessante”, acredita.

Saúde e bem-estar

Sâmara explica que não há problema entre conciliar compromissos de trabalho, atividades sociais e o convívio com a família. “Uma pesquisa de Harvard, do ano passado, comprovou cientificamente que determinadas áreas do cérebro são ativadas quando as pessoas doam parte de seu tempo ou acertam um presente a alguém. É a questão da satisfação. Essas pessoas doam o seu tempo, mas recebem algo em troca. O segredo de tudo é o equilíbrio”, esclarece.

Isso porque, em um mundo ideal, todas as pessoas trabalham apenas com o que gostam. Mas o mundo real é um pouco diferente. Por isso, é preciso cuidar para que o worklover não se transforme apenas em um disfarce para o workaholic. “Um palestrante de quem gosto muito destacou duas perguntas que devemos nos fazer: o que me faz feliz? E por que? Às vezes, quando tenho muitas coisas para fazer, preciso abrir mão de algumas, dizer ‘não’ de vez em quando, para que possa elencar o que é mais importante. Se estou sem tempo, o melhor a fazer no momento é me dedicar a algo que não quero, mas me dará dinheiro, ou cuidar mais do meu bem-estar e da relação com a minha família? Quando estamos fazendo muitas coisas e isso começa a afetar nossa saúde, talvez seja hora de repensarmos”, analisa.

Trabalho x lazer

Equilibrar a atenção entre o trabalho e a família é uma atividade diária. Para Lanius, trabalho é o dia a dia de ações que precisam ser realizadas para que seja digno enquanto pessoa e se sinta útil. “E lazer é aquilo que a gente faz com satisfação. Às vezes, até pode ser trabalho. A minha atividade é prazerosa porque tenho uma afinidade muito grande com o meio ambiente. Eu primo muito pela função social da minha empresa e, certamente, não me proporia a fazer trabalhos que viessem a prejudicar o meio ambiente e a saúde humana”, esclarece.

Na opinião de Johnson, trabalho significa realização profissional. “Mas também, para quem exerce a função pública, é gratificante poder ser útil à sociedade”, acrescenta. Já o lazer é uma forma de recuperar as energias. “Se bem que não tenho feito muito isso”, revela. “Mas é importante para manter a saúde física e mental. Os primeiros dias de férias sempre são complicados. É difícil ter que se adaptar ao ócio. Sair do ritmo para desacelerar é uma tarefa complicada”, admite.

Para Scapini, a questão do lazer tornou-se uma tradição. Embora ele admita que peque um pouco em relação a isso, pelo menos uma vez ao ano viaja com a família para desligar-se do mundo. “Eu peco um pouco neste campo porque estou muito ligado aos negócios diuturnamente. Mas com o andar dos dias, da vida, a gente passa a estabelecer alguns critérios. Dentre eles está sair com a esposa, fazer uma viagem, de forma que nos ajude a ter uma vida melhor e também a descansar”, completa.

Já na vida de Mallmann essa é uma questão que causa um pouco de desgaste. “Nos últimos dez anos venho trabalhando mais fortemente neste sentido. Fico, em média, duas noites por semana em casa. Normalmente, o convívio com a família acaba sendo aos finais de semana, nos domingos, que é o momento que eu reservei para isso”, explica. “Mas eu tenho certeza de que minhas filhas e minha esposa sentem falta do convívio. Não deveria ser assim. Muitas vezes, por não saber dizer ‘não’, e pelo envolvimento que acabo tendo com os projetos, acabou se tornando uma rotina, mas não deveria”, esclarece.

Valmor Scapini

O diretor do Grupo Scapini é formado em Ciências Contábeis pela Univates. Casado há 35 anos, o empresário tem três filhos e atua na empresa desde 1984. Segundo ele, a família é a chave para que se possa conciliar lazer, trabalho e projetos sociais. “Ela tem que permitir que tu consigas dispor de tempo para atender a empresa adequadamente, e também as demandas de ordem social. Falo isso como experiência própria. Além disso, tu precisas querer dispor do tempo, e ter a determinação de usá-lo muito bem, porque, para poder fazer muita coisa ao mesmo tempo, é preciso vontade e uma agenda bem organizada.”

Luís Antônio de Abreu Johnson

Magistrado titular do Juizado da Infância e Juventude e da Vara de Família na Comarca de Lajeado, Johnson atua como juiz há mais de dez anos, e já passou por uma dezena de comarcas no Estado. Substitui há quase um ano a Segunda Vara Criminal e a Vara de Execuções Criminais. Em sua rotina, de dez a 12 horas são dedicadas ao trabalho e ao desenvolvimento de projetos. “Além de cumprir com minhas responsabilidades, participo também de programas que vão em benefício da comunidade.” Sobre a família, prefere manter a discrição. “É uma extensão da realização de todos os sonhos. Mas prefiro não falar muito por questões de segurança”, esclarece.

Ito José Lanius

Diretor da Folhito Adubos Orgânicos, Lanius tem 58 anos e está casado há mais de três décadas. Em seu histórico de empreendedor estão outras seis empresas criadas por ele e pela família, que desmembraram-se em novos negócios ou foram vendidas. Atualmente, cerca de 30% de seu tempo é dedicado à comunidade, e os outros 70% são divididos entre a empresa e a família. “É a partir da célula familiar que emanam questões comunitárias. Porque eu, meus filhos e minha esposa almoçamos juntos praticamente todos os dias, e conversamos sobre esses temas. Essa estrutura familiar garante um dia a dia mais tranquilo.”

Marcos Mallmann

Proprietário da CBM Material Elétrico, Mallmann divide de 12 a 16 horas de seus dias entre o comando da empresa e a participação em associações e clubes locais. Quando perguntado por quê, responde de forma simples: “Porque me sinto bem”. Para o empresário, é necessário ter uma estrutura muito eficaz para suprir sua ausência enquanto dedica-se ao trabalho voluntário. “Em alguns momentos, deixo de fazer negócios por estar fora da empresa. Mas a participação nessas entidades abre portas. Dentro delas, recebo certas informações de forma mais rápida, me obrigo a buscar novas tecnologias, e isso ajuda a empresa a crescer.”

Dicas para se organizar melhor

Sâmara Irumé dá duas dicas para quem deseja organizar melhor seu tempo e conciliar compromissos de forma mais eficiente.

1ª – Centrar-se mais na sua saúde: segundo a psicóloga, equilibrar os momentos de convívio com a família, diversão com os amigos, lazer e trabalho é importante para se manter produtivo e saudável. “É importante ser produtivo no trabalho, mas também é essencial ter tempo para o resto da vida. Se a pessoa fica muito estressada no trabalho, isso mexe com os seus hormônios, a pessoa se sente mais cansada. Cria-se um ciclo que não é saudável.”

2ª – Utilizar gadgets (tablets e smartphones) de forma moderada: para Sâmara, é interessante sempre perguntar-se sobre a forma como tem utilizado os recursos digitais. “Um estudo em Harvard mediu a capacidade das pessoas de realizarem tarefas simultaneamente. Uma delas organizava-se para ler e-mails em determinados horários, participar de reuniões em outros e ainda conseguir almoçar; a outra estava sempre conectada, respondia tudo na hora, tentava fazer o maior número de coisas possível e nem ia almoçar”, conta. “Após o estudo, concluíram que a pessoa que não estava sempre disponível mas que havia organizado horários para responder seus e-mails era mais produtiva do que a outra. Por isso, acredito que devemos cuidar para não entrarmos em uma armadilha da tecnologia. Isso é um exercício diário. Se a pessoa se tornar escrava da tecnologia, não conseguirá produzir. Às vezes, precisamos limitar.”

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