Investimentos na hidrovia ficam para 2015

As condições de navegação entre o Porto de Estrela e o cais de Porto Alegre eram péssimas em abril de 2013. A pouca profundidade do Rio Taquari forçou o casco do navio Trevo Azul a bater contra os cascalhos acomodados no fundo do leito. Foram pelo menos quatro preocupantes choques. Um ano depois, navegadores lamentam a falta de investimentos e a piora nas condições da principal hidrovia da região.

Com as péssimas condições de navegabilidade, o movimento no porto segue diminuindo de forma gradativa. Em 2014, apenas cinco embarcações – afora navios carregados de areia – realizaram o trajeto entre Estrela e a capital gaúcha. A movimentação portuária, que chegou a 1,3 milhões de toneladas anuais na década de 80, hoje não supera a média de 350 mil.

Principal empresa a transportar mercadorias pela malha hidroviária do Vale, a Navegação Aliança desistiu de seguir “arriscando”. Foram só três viagens neste ano até Estrela. O diretor operacional da empresa, Ático Scherer, parece ter cansado de reclamar. “Não estamos mais fechando contratos para buscar carga no Porto de Estrela. É muito arriscado.”

As eventuais vindas ao Vale do Taquari costumam gerar prejuízos. Além dos corriqueiros problemas nas hélices e nas estruturas dos navios, as embarcações são obrigadas a transportar pesos bem abaixo dos limites de carga. “Se carregarmos 100%, ficamos encalhados.” Segundo Scherer, o último frete realizado levou cerca de 2,4 mil toneladas de fertilizantes. “Com pouca carga, o transporte naval acaba ficando mais caro”, lamenta.

A empresa realiza transportes navais na hidrovia desde 1980. Em épocas de intensa atividade, costumavam fazer entre seis e sete viagens por semana. A média era de 40 mil toneladas transportadas a cada 30 dias. Este ano, em cinco meses, não atingiu 25% desse montante. “Estrela conta com um dos melhores portos do Brasil, e ele está cada vez mais abandonado. É desanimador.”

Comandante de outra embarcação, utilizada para transporte de areia, Ricardo Nogueira conhece cada canto do Rio Taquari. Ele reitera a dificuldade. “Para quem conhece bem o trajeto, fica mais fácil escapar das armadilhas.” Há 13 anos navega pelo trecho dos rios Taquari e Jacuí. Garante que no início era mais fácil. “Falta dragagem.”

O navio comandado por Nogueira tem cinco metros de largura a menos em relação às embarcações da Navegação Aliança. “Por isso fica mais fácil para mim”, brinca. Em alguns trechos, a largura do rio não supera 20 metros. “Meus navios possuem 15,50 metros de largura. É quase impossível passar”, reitera Scherer.

O administrador do Porto de Estrela, Homero Molina, se queixa da falta de investimentos nas hidrovias e do pouco interesse da iniciativa privada. “Dezenas de indústrias utilizavam o modal para o transporte de cargas. A maioria fechou.” Lamenta ainda a diminuição no número de empresas de navegação. “Antigamente eram seis empresas atuando no Rio Taquari. Hoje, apenas duas e de forma muito esporádica.” Segundo ele, a média era de um barco por dia atracando no porto.

“Porto de Estrela está sem pai e nem mãe”

Para o novo superintendente da Administração das Hidrovias do Sul (AHSul/Dnit), Elói Spohr, apesar da qualidade da estrutura, o Porto de Estrela está “sem pai e nem mãe”. “Hoje ele é dirigido pela Secretaria dos Portos (Sep). Estamos pleiteando um convênio para que o Dnit e a AhSul reassumam a estrutura ainda este ano.”

Spohr, que assumiu a AHSul no mês passado, critica a falta de interesse da iniciativa privada e de gestores municipais na busca por um melhor aproveitamento do porto. Ele convoca líderes regionais para auxiliarem no desenvolvimento de planejamentos estratégicos. “Visitei esta semana a estrutura e me impressionei com a qualidade do local. Pena que ele virou um depósito de trigo.”

O superintendente vê como uma boa alternativa o interesse de um grupo de empresários portugueses pela gestão do porto. No ano passado, executivos da Terminal Multiusos do Beato acenaram com a intenção de investir R$ 300 milhões na reestruturação do local. Apesar disso, as negociações não avançaram.

Licitações só em 2015

Os aguardados investimentos na Hidrovia do Mercosul não chegam este ano. A promessa de construção de um “Corredor Multimodal”, interligando o Porto de Estrela aos portos de Montevidéu, Rio Grande e São Paulo deve iniciar só a partir do segundo semestre de 2015. O projeto já perdura há mais de 20 anos. Graças a isso, conta com o descrédito de empresários do setor naval.

Anunciado no início do ano passado, o Estudo de Viabilidade Técnica, Econômica e Ambiental (Evtea) foi entregue há dois meses. Ele custou cerca de R$ 5 milhões, e apontou as principais necessidades de investimentos. Projetos executivos estão prontos. No entanto, o Ministério dos Transportes aguarda pelos licenciamentos ambientais do Ibama e da Fepam para iniciar os processos licitatórios.

O estudo aponta uma série de investimentos necessários no Rio Taquari. Dragagem contínua, pouca sinalização e necessidade de balizamento foram consideradas as principais carências do trecho. Alterações nos limites da eclusa de Bom Retiro do Sul também devem ocorrer a partir do próximo ano. A principal delas é o aumento de 30 centímetros do calado, que hoje é de 2,50 metros.

Há discrepâncias entre os valores anunciados para implementar o novo corredor. Em 2009, a então ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, anunciava cerca de R$ 240 milhões em investimentos provenientes do PAC II. Em 2012, o anúncio era de R$ 270 milhões. No início do ano passado, o valor baixou para R$ 217 milhões.

Apontada como prioridade dentro do Plano Nacional de Logísticas e Transportes entre os anos de 2008 e 2011, a hidrovia deve abranger a Bacia da Lagoa Mirim, da Lagoa dos Patos, do Lago Guaíba, os rios Jacuí, Taquari, Sinos, Gravataí, Camaquã, Jaguarão, Uruguai e Ibicuí. No lado uruguaio, o projeto inclui ainda os rios Cebollatí e Tacuary.

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