Gestão, inovação e sucessão familiar pautam ciclo de palestras em Teutônia

Produtores rurais, especialistas do agronegócio, lideranças politicas e comunitárias, instituições de ensino, cooperativas e entidades ligadas ao agronegócio, profissionais técnicos, imprensa e comunidade prestigiaram o Circuito de Gestão e Inovação no Agronegócio, evento realizado na tarde da terça-feira, dia 22, em Teutônia. Numa promoção do Instituto de Educação no Agronegócio (I-UMA) e da Cooperativa Languiru e parceiros, o evento reuniu cerca de 280 pessoas na Associação Pró-Desenvolvimento de Languiru.

Durante o encontro, especialistas falaram sobre crédito agrícola, tecnologias sustentáveis e desafios de gestão. “Temos por objetivo propiciar a troca de conhecimentos nas relações do agronegócio, contribuindo para a organização da produção e da cadeia produtiva, permitindo a agregação de valor. O agronegócio está em plena evolução, é um tema relevante para a sociedade, gerador de alimentos para o mundo”, destacou o economista e presidente do I-UMA, José Américo da Silva na abertura do evento, enaltecendo ainda os parceiros na promoção do evento e a anfitriã Cooperativa Languiru.

Experiência em gestão e inovação baseada no cooperativismo 

A abertura do ciclo de palestras teve a participação do presidente da Cooperativa Languiru, Dirceu Bayer, que falou da experiência em gestão e inovação baseada no cooperativismo, o que tornou a Languiru referência em produção nos setores de suínos, aves, laticínios, rações, embutidos e varejo.

“A Cooperativa Languiru vive seu melhor momento, reconquistando sua credibilidade e possibilitando a realização de sonhos, com associados tendo a oportunidade de crescer junto com a cooperativa da qual são donos. Hoje contamos com um parque industrial novo e moderno, fruto do empenho dos nossos produtores e colaboradores, que nos permitiram investimentos de R$ 200 milhões nos últimos anos nas plantas industriais”, disse, na apresentação institucional da cooperativa.

Entre outros números, Bayer falou do reconhecimento do trabalho, com inúmeras premiações à Languiru, uma das maiores cooperativas do agronegócio gaúcho. “Recebemos muitas comitivas que querem conhecer qual o segredo do sucesso da Languiru, uma cooperativa pequena em termos de raio de atuação e propriedades rurais com média de dez hectares, que ao mesmo tempo se posiciona como a terceira maior cooperativa do agronegócio no Estado. O segredo está na diversidade e eficiência produtiva, com agregação de valor à matéria-prima. Além disso, contamos com o ciclo completo de produção, desde a origem da matéria-prima nas propriedades dos nossos associados, passando pela venda de insumos e parque industrial próprio, além do trabalho de assistência técnica.”

Por fim, o presidente reafirmou o valor do cooperativismo. “Nunca deixamos de sonhar e, com muita persistência, com o esforço de nossos associados e colaboradores, aliado às parcerias, estamos alcançando nossos objetivos. O cooperativismo e o associativismo são muito fortes em Teutônia e no Vale do Taquari, praticados na sua essência, com honestidade, humildade e transparência. Como cooperativa, valorizamos as comunidades nas quais estamos inseridos, fazendo a nossa parte para o desenvolvimento da região como um todo. A base do crescimento da Languiru está nas pessoas, que têm a oportunidade de evoluir com a cooperativa.”, concluiu Bayer.

Quatro pilares para construir um processo sucessório

A apresentação de ferramentas para estruturar a propriedade e controlar os custos de produção para obter mais rentabilidade foi apenas uma parte da palestra proferida pelo consultor da área de Gestão Estratégica e Gestão Financeira, Flavio Cazarolli.

Com o tema “Desafios da gestão e da eficiência produtiva”, ele abordou a sucessão familiar. “Um processo sucessório tranquilo e com resultados positivos deve ser construído sob quatro pilares: assegurar o controle do negócio pela família, preparar os sucessores, planejar a transferência do patrimônio enquanto vivo e profissionalizar a gestão. Independentemente do tamanho, toda propriedade tem herdeiros, mas nem sempre sucessores”, frisou Cazarolli, observando que 97% dos negócios são familiares, porém 70% são extintos na segunda geração e somente 15% chegam à terceira geração de forma unitária, um percentual considerado baixo. “É preciso um processo de governança e de profissionalização da gestão, o que evitará conflitos futuros”, relatou.

Para o palestrante, a partir das análises patrimonial, de resultados e de investimentos, é fundamental que os produtores rurais saibam transformar os números em tomada de decisões. “Muitas vezes, a forma como nos trazem a gestão financeira mais nos assusta do que estimula. Precisamos desenvolver métodos e sistemas mais simples para a gestão. Mesmo assim, independente do patrimônio que temos nas mãos, precisamos de pessoas capacitadas para gerir este patrimônio. São as pessoas que fazem a diferença. Esse gerenciamento deve ser feito por todos nós, seja na vida pessoal ou profissional”, disse, reafirmando que gestão é uma oportunidade de avaliar o negócio.

Especificamente no que se refere à sucessão e sociedades familiares, Cazarolli resumiu a prática com uma palavra expressiva: desafio. “Esse processo envolve um lado prático e outro emocional, por isso, muito cuidado para tratar do assunto em casa. Diferentes gerações familiares possuem características distintas para os negócios familiares. Nesse contexto, o maior problema é a informalidade. O registro da tomada de decisões pode diminuir alguns entraves, se não da parte do direito, moralmente ajuda a resolver conflitos.”

Para o palestrante, muito maior é a herança de valor do que de patrimônio. “Nenhuma sucessão é decidida sobre um inventário e conflitos podem levar ao encerramento do negócio. Avós, pais e filhos precisam trabalhar a inserção dirigida desde cedo, com os mais experientes aprendendo a passar o segredo do sucesso aos mais jovens, explicando, entre outras coisas, a origem dos bens, do patrimônio da família. Bens se vão rapidamente nas mãos de pessoas que não têm cabeça para trabalhar com eles. É preciso valorizar o esforço que se teve para chegar onde está”, concluiu.

Os desafios e oportunidades que envolvem a segurança alimentar e as tecnologias

A incorporação de conhecimento e de inovações tecnológicas provocou uma revolução no campo nos últimos 40 anos, elevando o Brasil a player mundial na produção de alimentos e gerando valor à cadeia do agronegócio. Esta evolução não se estancou, pelo contrário, se acelera nos próximos dez anos, transformando a tipologia da agricultura, que passa a ser multifuncional. O que isso significa? Que não serão mais produzidos apenas alimentos, mas fibras, biomassa, ao mesmo tempo preservando os recursos naturais e cuidando do bem-estar humano e animal.

“A conexão com a saúde será fundamental. O alimento deixa de ser um simples preenchedor de calorias diárias para ter aspectos nutricionais e seguros, garantindo qualidade de vida. A cobrança de um novo olhar para a agricultura virá da sociedade, que passará a exigir e ter forte controle sobre a eficiência na produção”, disse o doutor em Ciência do Solo e chefe-geral da Embrapa Clima Temperado, Clenio Nailto Pillon, na palestra “Segurança alimentar e as tecnologias sustentáveis: desafios e oportunidades”.

Para o palestrante, a inovação que adentrou as porteiras foi crucial para o aumento da produção. “Em 35 anos, a área cultivada cresceu 30%, em contrapartida, a produção aumentou 221%, o que se traduz em eficiência produtiva. A tecnologia mudará ainda mais a geografia das propriedades nos próximos anos, visto que a população rural reduzirá dos atuais 16% para 10% até 2030. Ou seja, com a escassez de mão de obra para o campo, os processos de cultivo e produção serão mais e mais mecanizados e automatizados”, afirmou.

Pillon alertou para a necessidade de investimentos em educação. “Como vamos fazer a agricultura daqui para frente? Se não caminharmos para alguns sentidos necessários e condicionantes para o sucesso da agricultura, como a educação, estamos fadados ao insucesso. A agricultura deverá produzir alimentos, fibras, energia, bem-estar animal e humano e prover serviços ecossistêmicos, com eficiência no uso da água, dos insumos e combustíveis fósseis, de forma a garantir o uso sustentável de recursos naturais e da biodiversidade.”

Sobre tendências e oportunidades, falou da mudança de perfil de consumo dos alimentos. “Até 2050 teremos um grande aumento do consumo de proteína animal e de lácteos, novo cenário que surge com muita força. São oportunidades interessantes que se apresentam para a nossa agricultura. Além disso, alimentos nutricionais e funcionais estão cada vez mais presentes, com altíssimo valor agregado, algo fantástico para a linha de produtos lácteos”, salientou Pillon, acrescentando que a rastreabilidade e a certificação dos produtos é outro diferencial que passa a ser exigido. “A sociedade cada vez mais vai querer saber disso, ficando evidente a necessidade do uso das boas práticas de fabricação na agricultura.”

Estabilidade econômica e continuidade patrimonial

“O seguro de vida como agente de estabilização econômica e continuidade do patrimônio” foi tema da palestra do mestre em Economia, professor e consultor Sérgio Rangel. Promovendo a reflexão do público, ele apresentou a dura realidade, da qual a maioria das pessoas não se dá conta até que a vida finde.

Com dados estatísticos de longevidade, frisou que atualmente o índice de natalidade de crianças do sexo masculino no Brasil é de 51,24%. “Mesmo que nasçam mais meninos, homens morrem mais, e mais cedo”, afirmou, apresentando estatística de expectativa de vida de 71,3 anos para homes e de 78,5 anos para mulheres.

“Em 2042 o Brasil terá uma população de 228 milhões de pessoas. Hoje, a população brasileira segue crescendo, para cada falecimento temos aproximadamente três nascimentos, mas haverá estagnação desse crescimento populacional e mudança da pirâmide de limite de longevidade. Aí surge o risco da vida durar mais que o patrimônio”, exemplificou.

Conforme Rangel, é possível viver bem e com tranquilidade. “Falhamos nesse quesito pelo fato de não planejarmos. O povo brasileiro, em geral, não tem o hábito de planejar. Pesquisa recente do Ibope aponta que o seguro de vida tem baixa penetração no Brasil.”

Para o palestrante, isso tem uma explicação bastante clara: “existe um apelo muito grande para as necessidades do agora, a satisfação de curto prazo, característica de uma sociedade consumista, onde mais que agradar o pessoal está o agradar também aos outros. A meta social predominante é fazer bonito para os outros”.

Rangel concluiu sugerindo que as pessoas fiquem atentas às oportunidades que se apresentam no dia a dia. “Precisamos inovar no tempo certo. Inovação é criatividade com utilidade. Não pense em inovar quando as coisas vão mal, pense nisso quando as coisas estão indo bem, pois o relógio não para pra ninguém.”

Crédito agrícola

Para falar sobre “A importância do crédito agrícola para o desenvolvimento do setor agropecuário brasileiro” foi convidado o superintendente federal do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), Francisco Signor, que por motivos pessoais acabou não se fazendo presente. Na ocasião ele foi representado pelo fiscal federal agropecuário do Mapa, Ricardo Cimirro.

Considerando as mudanças no padrão alimentar global e o aumento da população mundial, que, segundo a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), vai ser de nove bilhões de habitantes em 2050, o Brasil deve aumentar o fornecimento de alimentos. Incremento de produção que depende, muitas vezes, de programas de investimento e de linhas de crédito. Esse foi o foco da palestra, que ainda tratou de explicar alguns recursos disponíveis para o desenvolvimento do setor agropecuário brasileiro e apresentar o Plano Agrícola e Pecuário (PAP), que começou em 1º de julho deste ano e vai até 30 de junho de 2015.

Conforme Cimirro, esses investimentos possibilitam a geração de empregos e renda, além de melhores condições de trabalho e vida às pessoas. “Precisamos de projetos e pessoas para usufruir desses programas de investimento, com crédito à disposição de produtores e empresas”, defendeu.

Segundo ele, os principais eixos do PAP baseiam-se no apoio estratégico aos médios produtores, à inovação tecnológica, ao fortalecimento do setor de florestas comerciais e à pecuária de corte, além de ajustes no seguro rural. Ao todo, serão disponibilizados R$ 156,1 bilhões – alta de 14,7% sobre os R$ 136 bilhões da safra 2013/14 –, dos quais R$ 112 bilhões são para financiamentos de custeio e comercialização e R$ 44,1 bilhões para os programas de investimento.

Circuito de Gestão e Inovação no Agronegócio

O Circuito de Gestão e Inovação no Agronegócio já foi realizado em Dom Pedrito, Bento Gonçalves, Cruz Alta e Teutônia, sendo o próximo no mês de setembro em Não-Me-Toque. A iniciativa do I-UMA conta com o apoio da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), da Federação das Associações Comerciais e de Serviços do RS (Federasul), do SESCOOP-RS, do Parque Tecnológico de São Leopoldo (Tecnosinos) e de parceiros locais em cada uma das etapas do circuito, como CCGL, COOPEG, Cotrijal, Vinícola Guatambu Estância do Vinho, Ibravin, Cooperativa Languiru, Produfort e Simbiose. Entre os patrocinadores estão o Banco do Brasil, BSBios, Celulose Riograndense, Farsul, Senar, Sebrae, Icatu Seguros, Kepler Weber, Secretaria de Agricultura, Pecuária e Agronegócio do Estado do RS, e Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento – Mapa.

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