Geração de emprego desacelera e Vale apresenta queda de 96,41%

Há cerca de uma semana, a moradora de Bom Retiro do Sul, Micheli Ramos (25), está em busca de emprego. Mas, desde que deixou o setor calçadista, tem enfrentado dificuldades, pois se deparou com uma realidade antes vista apenas pelos meios de comunicação do país: a crise econômica e a baixa fomentação de novas vagas. “Está bem difícil”, lamenta.

Na região, a redução da geração de emprego chegou a 96,41% de janeiro a julho deste ano em relação ao mesmo período de 2014, conforme dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged).

Na primeira metade do ano passado, o Vale do Taquari apresentava um saldo positivo de 2.533 novas vagas. Agora, ostenta tímidos 91 novos empregos. Um dos casos que mais chama a atenção é o de Lajeado, a cidade polo: enquanto em 2014 o município apresentava uma geração de 1.053 vagas, de janeiro a julho, em 2015, perdeu 307 postos.

O comércio e a prestação de serviços são as áreas que mais têm sofrido com os fechamentos. No início do ano, o comércio teve perda de 119 vagas e os serviços, 109.

O presidente do Sindicato dos Lojistas do Comércio do Vale do Taquari (Sindilojas VT), Giraldo Sandri, confirma a percepção da mudança na prática. “Como a venda diminui, na mesma proporção vai caindo o emprego. E a venda não está boa, no momento”, conta.

Para o sindicalista, o índice ainda não chega a ser “alarmante”, mas já é “preocupante”. Assim, uma das alternativas para se buscar reverter a situação é a de qualificar o serviço prestado aos consumidores: “É uma forma de gerar coisas positivas para a empresa e evitar, inclusive, as demissões.”

Coordenador da agência FGTAS/Sine de Lajeado, Oilquer dos Santos, o “Neco”, também confirma que há uma desacelaração em plena atividade. “Assumi a coordenadoria em abril. Para se ter ideia, antes, tínhamos em torno de 200 vagas em aberto, e, hoje, temos entre 70 e 80. Reduziu mais de 50% o número de vagas”, relata.

Santos acredita que não apenas as possibilidades à disposição dos trabalhadores tenham diminuído, como a própria procura tenha passado por mudanças nos últimos meses. “Acredito que a procura tenha aumentado. Muitos trabalhadores são da época em que eram demitidos na lei do seguro-desemprego de seis meses. Tinham opção de ficar procurando emprego, além de mais fácil acesso às vagas. Hoje mudou isso e muitos não conseguem arrumar emprego.”

Diante das poucas vagas disponíveis aos trabalhadores, o Sine de Lajeado está em busca de novas empresas a integrar o cadastro. Segundo o coordenador, a unidade possui, inclusive, salas para que se façam as entrevistas de emprego. Visitas também estão sendo agendadas para que se tenha uma maior participação dos empregadores.

No Sine, o que mais tem surgido de oferta são empregos na área de produção, na alimentação e no setor calçadista. Contudo, segundo o coordenador, a própria área de alimentos já apresentou declínio nos últimos meses. “Antes, tínhamos várias empresas fortes que, agora, pararam de contratar. Temos algumas poucas que ainda seguram as vagas disponíveis.”

Sindicato dos comerciários tem percepção diferente

Apesar dos números na região e também no país – com crescimento de 8,3% na taxa de desemprego, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) – o presidente do Sindicato dos Empregados no Comércio de Lajeado, Marco Daniel Rockembach, não vê a crise tão fortemente, embora reconheça que tenha havido uma desaceleração.

“Não vi tão negativamente o primeiro semestre”, diz. Para ele, o impacto foi aquém do que se estava apregoando para o período de janeiro a julho de 2015. “Estava-se imaginando algo bem maior”, avalia. Rockembach conta que, no primeiro semestre, uma rede de supermercados fechou suas atividades em Lajeado, a penas isso já gerou uma redução de 30 postos de trabalho. “São algumas questões específicas”, reflete o sindicalista.

O presidente do sindicato dos comerciários acredita que exista uma crise muito mais política do que propriamente econômica acontecendo.

Cautela na segunda metade do ano

A presidente do Conselho de Desenvolvimento do Vale do Taquari (Codevat), Cíntia Agostini, avalia que os números do Caged ainda são positivos. Contudo, mostram que a geração de novas vagas está parando.

“A tendência é de que o segundo semestre se mantenha assim ou que o reflexo seja pior ainda, porque as medidas que foram tomadas, tanto na economia brasileira como no Estado – que está em uma situação ainda pior – estão impactando”, diz.

Para Cíntia, em Lajeado acaba se refletindo mais os efeitos da crise porque o setor agrícola está mais estável em outros locais. “Ele tem bancado a economia brasileira. Muitos municípios que dependem disso estão com uma estabilidade maior”, aponta.

A presidente do conselho relata que o setor da construção é algo que tem sofrido muito. Por consequência, o comércio e a prestação de serviços também. “As pessoas com menor renda – porque alguém perdeu o emprego ou porque a inflação fez com que ficassem assim -, estão deixando algumas coisas de lado, como a ida ao cabeleireiro ou ao dentista.”

Cíntia não descarta a possibilidade de um saldo negativo nos números, na região, na segunda metade deste ano. “Se chegar a zero estaremos no lucro, na situação atual”, analisa.

A perspectiva de melhora está ligada à possibilidade de uma reação mais imediata na economia brasileira e na economia gaúcha. “Dados melhores acreditamos serem possíveis apenas no final do ano que vem. A reversão é no segundo semestre de 2016. É isso que está mais ou menos desenhado, porque no segundo semestre desse ano e no primeiro do ano que vem ainda devem refletir esses aspectos muito negativos.”

Cautela

Cíntia Agostini prefere não falar em “preocupação” no momento de crise em que se trata. Para ela, o momento é de cautela. “Acho que esse é o termo mais adequado para tudo”, observa.

A presidente do Codevat afirma que dizer para as pessoas não consumirem ou não fazerem, neste momento, representa desestimular ainda mais o processo em curso. “Mas, não podemos dizer que é um momento positivo. As pessoas têm que olhar com bastante cuidado quando forem fazer alguma compra e para o trabalho no qual estão inseridas. A competitividade se acirra nesse momento. Isso é bem claro.”

Reflexo do desaquecimento da economia

O desaquecimento da economia é o motivo para o baixa na geração de empregos, segundo o presidente da Câmara de Indústria, Comércio e Serviços do Vale do Taquari (CIC-VT), Ito Lanius. Além disso, ele comenta que a própria queda do Produto Interno Bruno (PIB) e dos poucos financiamentos – com custos altos – contribuíram para a pouca geração de empregos.

Para ele, tem-se poucos investimentos e, como consequência, não há empregabilidade. “Não há dinheiro para girar. Nós estamos assistindo à uma situação inversa da que nós deveríamos estar assistindo. Se nós tivéssemos um dado simples, como o crescimento do PIB, isso seria o inverso. E ainda assim, temos que considerar que estamos em uma região do agronegócio, falando de Vale do Taquari”, afirma.

O presidente da CIC-VT acredita que, embora o comércio e a prestação de serviços mostrem impactos, no momento, em breve haverá reflexos no consumo do leite, frango e carne suína.

“A inflação alta corrói o poder de compra. Todos esses fatos somados levam a uma triste realidade, que, se olharmos no contexto geral, parece não tão significativa. Mas se olharmos invididualmente, as famílias que são diretamente atingidas, veremos o que representa para aquelas pessoas.”

Lanius afirma que já é possível ver alguns impactos do desemprego e da crise na região: “Há muitos empresários fazendo esforços maiores e procurando novos mercados. Vendedores que antes não vinham para a região porque conseguiam vender nas suas. Isso aumenta a competitividade e faz com que os preços praticados sejam ainda menores. A famosa lei da oferta e procura se evidencia muito.”

Vagas de empregos na região

Anta Gorda:
2014: +52
2015: +25

Arroio do Meio:
2014: -15
2015: +184

Arvorezinha:
2014: +20
2015: +46

Bom Retiro do Sul:
2014: +13
2015: +108

Boqueirão do Leão:
2014: +1
2015: -34

Canudos do Vale:
2014: +1
2015: -4

Capitão:
2014: +7
2015: -1

Colinas:
2014: -108
2015: -10

Coqueiro Baixo:
2014: +13
2015: 8

Cruzeiro do Sul:
2014: +141
2015: -63

Dois Lajeados:
2014: +33
2015: +10

Doutor Ricardo:
2014: -3
2015: -9

Encantado:
2014: +124
2015: 164

Estrela:
2014: +282
2015: -536

Fazenda Vilanova:
2014: -13
2015: +60

Forquetinha:
2014: +3
2015: -9

Ilópolis:
2014: -17
2015: +29

Imigrante:
2014: -19
2015: +26

Itapuca:
2014: 0
2015: -5

Lajeado:
2014: +1.053
2015: -307

Marques de Souza:
2014: 0
2015: +28

Muçum:
2014: +113
2015: +43

Nova Bréscia:
2014: +23
2015: +10

Paverama:
2014: +22
2015: +31

Poço das Antas:
2014: +81
2015: -193

Pouso Novo:
2014: +3
2015: +3

Progresso:
2014: -7
2015: +38

Putinga:
2014: +10
2015: +5

Relvado:
2014: -7
2015: +11

Roca Sales:
2014: +99
2015: +90

Santa Clara do Sul:
2014: +191
2015: +144

Sério:
2014: -3
2015: -1

Tabaí:
2014: +49
2015: +16

Taquari:
2014: -16
2015: -44

Teutônia:
2014: 252
2015: +203

Travesseiro:
2014: 38
2015: 0

Vespasiano Corrêa:
2014: -13
2015: -8

Westfália:
2014: +130
2015: +33

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