Fungo atinge uvas e compromete safra

Viticultores estão apreensivos com a ameaça de perdas nos parreirais em virtude do excesso de chuva. As condições do tempo são favoráveis à infestação de fungos nas videiras, como o míldio, responsável por causar o amarelamento das folhas e apodrecimento das frutas. A colheita iniciou em meados de dezembro, com variedades mais precoces.

De acordo com o engenheiro agrônomo e assistente técnico em fruticultura da Emater Regional, Derli Paulo Bonine, a condição atinge quase todas as propriedades gaúchas. No caso do míldio, ele se instala nas plantações quando ocorrem vários dias consecutivos de chuva. “Como em alguns casos a colheita começou, o produtor não pode fazer o controle químico. Ele fica sem opção e depende da sorte.”

O fungo demora, em média, três dias para se instalar em uma propriedade. Com o apodrecimento das bagas, se torna inviável o aproveitamento da fruta para a venda no comércio in natura. Também desqualifica a produção de suco ou vinho. “Industrializada, a uva até pode ser aproveitada. Mas para isto é preciso retirar todas as partes estragadas, o que aumenta o serviço e o custo de produção.”

Além do míldio, outros fungos decorrentes do excesso de chuva causam doenças nas uvas nesta época. Um dos mais comuns é o chamado “podridão da uva madura”. Conforme Bonine, os sintomas mais evidentes são observados na fase de maturação ou nas frutas já colhidas. Sobre as bagas contaminadas, surgem manchas circulares – marrom avermelhadas – que se espalham para o resto do cacho deixando-o escurecido.

Com chuvas acima do normal, também diminuem a qualidade e a doçura da fruta.

De acordo com Bonine, a uva necessita de chuvas regulares até a fase de maturação para que os cachos se formem. “Passado isto seria bom que parasse completamente de chover. Bastante sol e baixa umidade são excelentes, bem o contrário do ocorrido nos últimos dias.”

Dezembro registrou 323,9 mm de chuva, 130% acima da média climatológica. No primeiro dia de janeiro, já foram 43,2mm. “No Chile, onde são produzidas uvas em grande qualidade, chove isso durante o ano inteiro. Lá é possível administrar a água pela irrigação.”

Conforme o engenheiro, ainda não é possível precisar o percentual de estragos nas videiras da região. A Emater aguarda pelos relatórios dos municípios.

Perda de 10% da produção

O produtor Rodrigo Zancanaro, 32, cultiva 4,5 mil videiras das variedades francesa, niágaras branca e rosa, rubi e rainha itália. Contabliza 10% da plantação comprometida. “As bagas estouram de tanto líquido, atraindo pássaros, abelhas e outros insetos.”

As perdas em virtude dos fungos foram amenizadas por meio da aplicação de fungicidas. Desde o fim de outubro, quando brotaram os primeiros cachos, Zancanaro aplica os produtos de controle. A última dose é passada nas uvas 20 dias antes da colheita. “Gasto 20% do faturamento com fungicidas, mas pelo menos garanto a produção.”

A família Paludo, proprietária de uma vinícola na comunidade de Vasco Bandeira, em Marques de Souza, trabalha com variedades mais precoces e resistentes, como a BRS Violeta. Tal condição favoreceu para que as perdas não fossem elevadas. “Mesmo assim, gastamos mais do que o previsto em tratamento antifúngico”, aponta Marciano Paludo, 39.

De acordo com o produtor, tecnólogo em viticultura e enologia, o excesso de chuva causa maiores perdas em variedades colhidas de agora em diante. “O fato de termos variedade de colher antes não atinge tanto. O problema é janeiro e fevereiro.” A família cultiva três hectares e compra parte das frutas de terceiros.

Preço deve subir

Devido às condições da safra o preço da uva e derivados, como sucos e vinhos, tende a aumentar. Na avaliação de Bonine, as variedades de maior qualidade terão o maior encarecimento. “Infelizmente a elevação do valor não compensará as perdas previstas nas plantações.”

No fim de dezembro, o Ministério da Agricultura aprovou o novo preço mínimo básico da uva industrial para esta safra. O reajuste vale para as regiões Sul, Sudeste e Nordeste. O valor chegou a R$ 0,70 por quilo, válido desde quinta-feira até o dia 31 de dezembro deste ano. O anterior era R$ 0,63 por quilo.

Umidade afeta outras culturas

Além da uva, a qualidade das demais frutas em cultivo nesta época deve ter influência do tempo. As mais afetadas, segundo Bonine, são a melancia e o melão. “Estamos prevendo grandes perdas, apesar de a produção ser pequena na região.” A maior parte dos produtores está localizada na região próxima ao Vale do Caí, em Taquari e Tabaí.

Outra cultura ameaçada é a do figo, que começa a ser colhido. Os principais estragos devem ser causados pela doença da ferrugem, patógeno que atinge diversas espécies do gênero Ficus, como figueiras. A ferrugem começa sobre as folhas, com pequenas manchas angulosas verde-amarelada.

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