ERS-431: Uva de graça em sinal de protesto em Dois Lajeados

Os motoristas que transitaram pela ERS-129 e pela ERS-431 receberam cachos de uva no fim da tarde de ontem. A entrega da fruta marcou o manifesto pacífico organizado pela Associação das Entidades Representativas da Classe Empresarial da Serra Gaúcha (CIC-Serra), com apoio de prefeitos, lideranças, autoridades, produtores e comunidade de 11 municípios da região.

Cerca de 300 pessoas se concentraram no trevo de acesso ao município de Dois Lajeados e reivindicaram melhorias no trecho de 45 quilômetros que liga até a cidade de Bento Gonçalves. Há mais de duas décadas, conforme explica o prefeito de Dois Lajeados, Valnei Cover, a rodovia encontra-se em situação de abandono.

O pior, no entanto, segundo ele, é a situação do trecho entre as comunidades de Linha Colussi e Linha Alcântara, na altura do km 14, onde parte da estrada desabou no mês de novembro. Desde então, a pista foi interditada pelo Departamento Autônomo de Estradas e Rodagem (Daer), mas devido à importância da via, dias depois do ocorrido, voltou a receber o fluxo de veículos, mesmo não recebendo reparos.

Para Cover, o protesto pacífico atingiu os objetivos esperados, que era mobilizar a comunidade para a situação problemática do trecho. “Foi uma forma de mostrar a nossa indignação, acumulada há muito tempo.” Agora, conforme o chefe do Executivo, o próximo passo será agendar uma audiência com o governador Tarso Genro, a fim de discutir e buscar uma solução para o problema da ERS-431. “Se ele não quiser nos receber, vamos acampar em frente ao Palácio, com as uvas. Queremos mais comprometimento e não só promessas”, justifica.

O presidente da CIC-Guaporé, Rodrigo Marin, afirma que a CIC-Serra abraçou o problema e liderou o manifesto pelo fato do assunto ERS-431 sempre ser lançado em reuniões entre os 11 municípios que compõem a entidade. “Todos barram na questão infraestrutura. A rodovia é a nossa principal ligação a Bento Gonçalves, Caxias do Sul e até mesmo a Porto Alegre. Precisamos dela em condições trafegáveis, do contrário, toda nossa economia ficará prejudicada”, observa.

Marin entende que o setor primário, a saúde, a educação e o turismo precisam da rodovia trafegável para ocorrerem. “Toda produção de uva é escoada por ali, pacientes buscam hospitais maiores, como os de Caxias e Bento, assim como os universitários. Além disso, é a rota que leva, também, os turistas a Serra”, exemplifica.

A Secretaria de Infraestrutura e Logística do Estado (Seifra) diz que uma empresa de engenharia fará um estudo da área nos próximos dez dias. Após isso, a obra de recuperação do trecho onde houve o deslizamento de terra será iniciada. A previsão é para o mês de fevereiro.

Prejuízo na safra

O produtor e também transportador de uva de Santa Teresa, Talino Giuriatti (40) foi um dos que abraçaram o protesto. Vestiu a camiseta do manifesto e participou da iniciativa avaliada por ele como excelente e necessária. “A gente precisa fazer barulho, mostrar o quanto estamos esquecidos e sofrendo com essa situação que parece não ter fim”, diz.

Dentro de 15 dias, Giuriatti dará início ao transporte da uva a uma cooperativa de Bento Gonçalves. Para isso, precisará utilizar a ERS-431 por, pelo menos, duas vezes na semana. Embora o trecho no local do desmoronamento ofereça perigo aos motoristas, ele ainda utiliza a estrada por ser o caminho mais viável. “A gente tem medo, sim, porque a estrada é muito ruim, cheia de buracos. Mas precisa trabalhar e entregar a produção.”

Ele, que chega a transportar cerca de 30 toneladas de uva por safra, garante que a fruta chega danificada até o destino final. “É muito buraco, chega toda amassada, e isso é prejuízo”, afirma. De acordo com Giuriatti, além dos danos causados à fruta, há prejuízos ao veículo. “Tenho que fazer a manutenção do caminhão com maior frequência, é pneu que estoura, motor que dá problema, muitos gastos.”

Além disso, em virtude da precariedade da rodovia o tempo de viagem aumenta. “São 30 quilômetros que faço em uma hora e meia, quando poderia levar apenas 40 minutos”, ressalta.

Manifestação antiga

A agricultora Ana Nunes (67) lembra que, há dois anos, uma manifestação com paralisação da estrada na comunidade de Santa Bárbara, interior de São Valetim do Sul, foi realizado reivindicando melhorias.

Se nada for resolvido agora, ela pretende reunir um grupo de mulheres da localidade e, com carrinhos de mão, colocar terra nos buracos e na cabeceira de uma ponte inacabada, construída no trecho. “Já estamos até combinando. Se eles não fizerem nada, a gente é que vai fazer, nem que seja com nossas próprias mãos”, promete.

Para a aposentada, a situação alarmante da ERS-431 é um fator de atraso e de estresse, dificultando a vida dos moradores que vivem próximo ao trecho. “A gente depende de hospital em Bento Gonçalves, meus filhos vão para lá trabalhar, utilizamos a estrada também para ir ao mercado e fazer as compras. É complicado”, detalha.

Outra reclamação de Ana é acerca do cancelamento da linha de ônibus no trecho após o desmoronamento de novembro. “Até sem ônibus estamos, temos que gastar com táxi ou com o nosso próprio carro. É muita falta de consideração pela população”, pontua.

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