Debate aponta urgência de unir e planejar a região

A necessidade de melhorar os modais logísticos para assegurar competitividade à produção gaúcha deu o tom do debate Pensar o Vale. Promovido na tarde da última quarta-feira, dia 28, pelo Jornal A Hora, o evento reuniu líderes regionais, estudiosos e autoridades da temática em uma estrutura emblemática: o Porto de Estrela.

Vice-presidente da Federasul e representante da Agenda 2020, Paulo Renato Menzel abriu o painel alertando para o alto custo da logística no Rio Grande do Sul, que hoje supera os 22% do PIB. Segundo ele, para competirmos em igualdade no mercado internacional, a logística deveria representar no máximo 6,2% do índice.

“O maior problema é que esse valor está em curva ascendente crescendo em média 0,3% ao ano”, adverte. Principal concorrente no mercado mundial de grãos, os Estados Unidos têm na logística o custo de 8,5% do PIB.

“Temos uma produtividade imensa, maior que a deles, mas da porteira da lavoura ao porto colocamos tudo fora”, ressalta. Para Menzel, o Estado precisa estabelecer como meta a redução desse custo, pois ele diminui a lucratividade e a competitividade.

“Se conseguirmos, teremos deixado um legado para nossos filhos e netos”, considera. Para que isso ocorra, defende a união entre os diversos setores e regiões do RS em torno de um projeto integrado, com planejamento visando os próximos cem anos de desenvolvimento, da mesma forma como fazem os países desenvolvidos.

Relata que o Estado não tem um plano de logística, apenas obras realizadas de acordo com os interesses e necessidades imediatas de cada região. “Hoje, as soluções ocorrem por pressão de A, B ou C e não sabemos o que vamos fazer para daqui a cinco anos.”

Conforme o dirigente, para estabelecer um novo modelo de logística, o poder público e a iniciativa privada precisam trabalhar juntos, tanto na fase do planejamento quanto na elaboração dos projetos e na definição de onde serão obtidos os recursos. “Estamos no marco zero e a resposta é a união.”

Citou como exemplo o movimento que desencadeou a construção do Polo Petroquímico. “A última vez que o RS se uniu em prol de alguma coisa foi em 1979, quando toda a sociedade lutou por essa conquista.”

Para ele, a região não deve brigar apenas por projetos que beneficiem o Vale e, sim, o estado como um todo. Além disso, precisa avaliar as demandas existentes e estabelecer se de fato elas contribuirão para reduzir o custo da logística.

Incapacidade para investir

Presidente da Câmara da Indústria, Comércio e Serviços do Vale do Taquari (CIC-VT), Ito Lanius ressaltou o atraso de obras consideradas emergenciais para o desenvolvimento regional. “Como não temos planos nem previsões, precisamos sanar gargalos depois que eles já existem.”
Como exemplo, citou a duplicação da BR-386, solicitada por líderes empresariais da região desde 1981. “Quanto tempo teremos que esperar e quais estratégias precisamos adotar dentro da situação vivida pelo estado?”

De acordo com o presidente da Assembleia Legislativa, Edson Brum, para o RS retomar a capacidade de investimentos, cada gaúcho terá de fazer sacrifícios. “O custo do Estado é muito alto. Nossa capacidade de investimentos, que no governo Simon era de 25%, hoje é de 0,2%.”

Segundo ele, as duas últimas gerações de servidores públicos acabaram falindo a previdência e somente sete municípios do estado conseguem pagar os inativos com a arrecadação do INSS. “Isso foi corroendo as finanças, mas ninguém quer abrir mão dos benefícios adquiridos.”

Falou ainda sobre o jogo de interesses que resultou no estabelecimento do modal rodoviário como o principal meio de transporte no Brasil. “Para atrair a indústria automobilística, JK e Getúlio Vargas se comprometeram em parar de investir nas hidrovias e ferrovias. Por isso, nossa estrutura é arcaica.”

Coordenador do curso de Logística da Univates, Samuel Martin de Conto aponta para a urgência de encontrar soluções para investir no setor diante das dificuldades econômicas do Estado e da União. Para ele, se a iniciativa pública não tem condições de fazer investimentos, a saída é incentivar a iniciativa privada.

“Não podemos esperar por três ou quatro governos. Os investimentos são necessários para amanhã”, frisa. Segundo de Conto, a iniciativa privada segue uma lógica distinta em relação aos órgãos públicos. Como não precisa enfrentar burocracias e necessita apresentar resultados, tem uma dinâmica mais célere, pondera.

Hidrovia e Porto de Estrela

Palco do Pensar o Vale e uma das principais estruturas logísticas do RS, o Porto de Estrela norteou as considerações do prefeito do município, Rafael Mallmann e do diretor da Superintendência de Portos e Hidrovias (SPH), Cristiano Nogueira da Rosa.

De acordo com Mallmann, a hidrovia do Rio Taquari está pronta e tem capacidade adequada para a navegação, mas falta interesse privado nas operações do Porto. “Antes pensava que tínhamos alguns problemas na estrutura, mas a lucratividade não contenta os interesses das empresas.”
Segundo ele, um grupo suíço teria a intenção de operar o transporte de soja no local, mas não encontra armadores dispostos a disponibilizar barcos. Conforme Nogueira, o limite do calado do Taquari é de 3,2 metros, o que impede o emprego de grandes embarcações.

“Não temos que pensar em adequar a hidrovia aos barcos, e, sim, os barcos à hidrovia, porque é muito mais fácil”, reforça. Conforme o diretor, o objetivo do plano de logística desenvolvido pelo governo é dividir a distribuição entre os diferentes modais.

“A hidrovia não vai concorrer com as demais estruturas, pois a união de todas os modais é que vai reduzir nossos custos com a logística ”, assegura. Segundo ele, a intenção é fazer com que os longos percursos sejam realizados por meio de barcaças e os pequenos e médios trajetos por via rodoviária ou por meio de trens.

Ramais ferroviários

Outra demanda histórica do Vale do Taquari é a viabilização do transporte ferroviário. Presidente do Conselho de Desenvolvimento (Codevat), Cíntia Agostini relatou o esforço de líderes regionais para incluir o Vale no trajeto da Ferrovia Norte Sul.

“Era nossa prioridade, mas por motivos que fogem da nossa alçada, o traçado passará por outros lugares do estado”, enfatiza. Diante disso, a região passou a demandar um ramal da ferrovia. Porém os investimentos estão previstos somente a partir de 2018.

“Acho que nossas entidades fazem o dever de casa, mas não conseguem avançar nas relações com os outros órgãos dos quais dependemos”, pondera. Segundo ela, a empresa para a qual foi concedido o trecho ferroviário existente no Vale enfrenta processos judiciais por não ter realizado os investimentos exigidos em contrato, o que também atrapalha a utilização do modal.

Articulação regional

A presidente do Codevat enalteceu a realização do Pensar o Vale e sugeriu a elaboração de novos debates abrangendo também outros temas. Reiterou os pedidos de união entre os diferentes líderes regionais para estabelecer os planejamentos estratégicos para o Vale do Taquari.
Diante da ideia de reunir o mesmo grupo daqui a um ano, sugeriu um novo encontro em, no máximo, três meses. “Temos a responsabilidade de estabelecer este planejamento e vamos fazer”, garantiu. Para ela, o Pensar o Vale pode se tornar a largada de uma nova realidade para o desenvolvimento regional.

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