Cultivo sem agrotóxico é alternativa de renda e saúde

A vontade de empreender aliada à busca por uma atividade alternativa levou os amigos Rafael Cunha (23) e Leandro Lange (40) a investir na produção orgânica. Desde ontem, a 11ª Semana dos Alimentos Orgânicos (SAO) coloca o assunto em evidência, em ações por todo o país.

Cunha é radialista e, nas horas de folga, troca os microfones pela enxada, carrinho de mão e rastelo. As mesmas ferramentas são manuseadas por Lange, que é músico à noite, mas durante o dia se dedica, de domingo a domingo, a plantar, cultivar e colher alface, repolho, rabanete, brócolis, rúcula, entre outras verduras.

O entusiasmo dos sócios, moradores de Lajeado, contribuiu para que o negócio fosse criado. Desde o início deste ano, eles produzem as hortaliças sem o uso de produtos químicos em uma área de dois hectares arrendada no Bairro Dona Rita, em Arroio do Meio. “A ideia inicial era produzir cogumelos. Mas pesquisamos um pouco mais e vimos que tinha esse mercado (de orgânicos) e que até é pouco explorado. Fizemos um teste no ano passado, com a orientação técnica de um amigo, e vimos que deu certo”, relata Lange, ao lembrar também do apoio dado pelos vizinhos experientes, que, no início, até achavam engraçada a “aventura rural”.

Prova de que ideia criou raiz é que, em vez de frutos, eles começaram a colher e a vender, recentemente, os primeiros legumes e verduras da plantação. A rentabilidade do negócio é atrativa. De acordo com Lange, o fato dele e de Cunha trabalharem, e não precisarem gastar com mão de obra, conta muito para isso. “Pelo que a gente nota, o produto orgânico é bem valorizado”, comenta Cunha.

A comercialização é feita de forma direta, na horta ou na casa dos proprietários, e também para fruteiras. “A princípio está dando certo, e a tendência é a gente ampliar”, planeja o radialista. Ele e o parceiro pretendem construir mais 30 canteiros. Somado aos atuais, serão 79, com 70 metros de cumprimento cada.

Produção

Exemplos como o de Cunha e Langer ainda são minoria na região. Entre os cerca de 26,5 mil agricultores familiares do Vale do Taquari, em torno de 800 estão em processo de transição, trocando o cultivo com agrotóxicos e adubos químicos pela cultura dos orgânicos – o equivalente a 3%. Além disso, cinco propriedades possuem certificação e são autorizadas a vender os produtos com o selo de orgânicos.

Segundo o engenheiro agrônomo Marcos José Schäfer, assistente técnico regional de manejo de recursos naturais da Emater-RS/Ascar, o tempo de transição para o cultivo dos orgânicos varia em cada propriedade. Durante o período, que pode ser de meses ou anos, os produtores trabalham em busca da “vivificação do sistema”, para garantir que o desenvolvimento das plantas não dependa mais do uso de agentes químicos. “Em função da matéria orgânica destruída pelo uso dos produtos químicos, é preciso reconstruir e equilibrar o solo e o ambiente à sua volta”, explica.

Com o sistema revitalizado, o ambiente coopera com a produção do agricultor. O inço – um dos grandes motivadores do uso de agrotóxicos – é reduzido, quando o solo está equilibrado. Dessa forma, além da garantia de uma produção natural, a mudança diminui o trabalho dos produtores. No entanto, Schäfer pondera que o cultivo de orgânico exige conhecimento. “Muitas pessoas têm falsa impressão de que produzir forma orgânica é deixar de usar tecnologia, quando, na verdade é o contrário: precisa-se de muito mais conhecimento e tecnologia”.

Orgânicos: um estilo de vida

Na casa da assistente social Simone Sarate Pozza (48), o consumo de alimentos sem aditivos químicos é um hábito. A consciência de que o uso de agrotóxicos faz mal para a saúde e para a natureza acompanha Simone desde a infância, quando os pais mantinham uma horta em casa.

Hoje, a maioria dos alimentos que entra no lar dos Pozza é de procedência orgânica. Periodicamente, Simone e o marido Jorge Pozza se deslocam de Lajeado a Arroio do Meio, para adquirir frutas, verduras e legumes na Agroecologia Ferrari. No local, mais do que adquirir produtos fresquinhos e 100% naturais, o próprio cliente é convidado a colocar um chapéu de palha e, com uma cesta a tiracolo, colher o próprio alimento.

A experiência reforça o entendimento de Simone de que o consumo de orgânicos é mais do que uma preferência: é um estilo de vida. “É um cuidado que temos com a gente, com o outro e com o planeta. Ao consumirmos produtos sem agrotóxico estamos cuidando da nossa saúde e também do meio ambiente”, considera.

Além desses benefícios, a lajeadense destaca outra vantagem no consumo dos orgânicos: o sabor. A nutricionista Ana Paula Dexheimer garante que isso não é apenas uma impressão. “Com o advento dos alimentos industrializados e a consequente utilização de grandes quantidades de aditivos químicos, viemos num processo de atrofia das papilas gustativas – aquelas ‘bolinhas’ que temos na língua e garantem que sentimos o sabor dos alimentos”, esclarece.

Conforme Ana Paula, os aditivos químicos fazem com que, a médio e longo prazo, deixe-se de sentir o verdadeiro sabor dos alimentos. Reverter esse quadro, de acordo com nutricionista, exige a “dessensibilização” – provar alimentos naturais e (re) descobrir sabores.

Brasileiro consume 5,2 quilos de agrotóxico ao ano

No Brasil, a venda de agrotóxicos saltou de US$ 2 bilhões para mais de US$ 7 bilhões, ao ano, entre 2001 e 2008, alcançando valores recordes de US$ 8,5 bilhões em 2011, de acordo com relatório do Instituto Nacional de Câncer (Inca). Em 2009, o país alcançou a indesejável posição de maior consumidor mundial de agrotóxicos, ultrapassando a marca de um milhão de tonelada. Isso representa um consumo médio de 5,2 quilos de defensivo agrícola por habitante, por ano.

O engenheiro agrônomo Marcos José Schäfer explica que o uso de agrotóxicos foi incentivado a partir das décadas de 1960 e 1970. Hoje, o desafio para os agricultores que aprenderam que o uso do agrotóxico era a melhor forma de produzir, é ir na contramão e investir em produtos orgânicos. “O agricultor se acostumou a trabalhar dessa forma, com produtos químicos. Para o processo de mudança, ele precisa estar convencido, saber dos malefícios do uso de agrotóxicos”, acredita.

Para o extensionista da Emater, a sociedade também tem o papel de buscar informações sobre o assunto e aumentar a procura por orgânicos. Para os interessados no assunto, as duas edições do documentário O Veneno Está na Mesa, do cineasta Silvio Tendler, abordam o tema. Os filmes se encontram disponíveis no You Tube.

Em questão

A nutricionista Ana Paula Dexheimer fala sobre alimentação saudável e os prejuízos dos produtos industrializados e com agrotóxicos.

1 – Quais os benefícios dos alimentos orgânicos?
Ana Paula Dexheimer – Que os alimentos orgânicos fazem bem para a saúde, ninguém discute. Na verdade, na antiguidade, só existiam orgânicos. O ganho na indústria levou à perda na saúde, sem contar na série de problemas ambientais. Os reflexos apontam para alteração de hábitos alimentares com uma dieta baseada no consumo de substâncias tóxicas, alimentos excessivamente processados, irradiados, geneticamente modificados. Além disso, associa-se o consumo exagerado de gorduras, açúcares e sódio. Tudo isso com a finalidade de melhorar a aparência, sabor e a capacidade de conservação dos alimentos.

2 – Quais os efeitos do consumo de agrotóxicos ao organismo?
Ana Paula – Pesquisas apontam para a possibilidade de diversas alterações nos sistemas do organismo, inclusive, para o desenvolvimento de alguns tipos de câncer.

3 – Há uma maneira de eliminar os agrotóxicos dos alimentos?
Ana Paula – Não conseguimos eliminar os agrotóxicos que estão nos alimentos, no entanto, conseguimos reduzir a ingestão. Uma das maneiras é retirar a casca e fazer uma higienização com solução adequada: duas colheres de vinagre para cada litro de água ou uma colher de água sanitária para cada litro de água.

Saiba mais

A 11ª Semana dos Alimentos Orgânicos (SAO) de 2015 foi aberta oficialmente no último domingo, dia 24, em Brasília, e segue até o próximo domingo, dia 31. A programação é realizada simultaneamente em 21 estados, entre eles o Rio Grande do Sul, e dá início à campanha anual dos produtos orgânicos. A proposta é divulgar para os consumidores os benefícios ambientais, sociais e nutricionais desses alimentos. Cursos, seminários, debates e feiras estão entre as atividades previstas.

A SAO é organizada pela Secretaria de Desenvolvimento Agropecuário e Cooperativismo do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa).

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