Com superprodução, Vale precisa exportar lácteos

Ao contabilizar um milhão de litros produzidos por dia a região se depara com uma consequência da superprodução de leite: o consumo que não acompanha. Saturado, mercado puxa para baixo o preço que já chegou a ser comercializado a R$ 1 e hoje rende R$ 0,80 em média ao produtor. Uma das alternativas seria a exportação. No entanto, a morosidade em Brasília emperra processos da região que teria condições de transformar 450 mil litros por dia em 50 toneladas de leite em pó para o exterior à Rússia, mercado aberto ao leite brasileiro, freado nos Estados Unidos e na União Europeia.

O secretário de Agricultura de Estrela, município que concentra a maior produção no Vale, José Adão Braun conhece bem essa história. Mesmo com um cargo no Executivo, ele não deixa de ser produtor de leite. As 92 vacas, ordenhadas diariamente, garantem uma produção de 2,4 mil litros.

Braun queixa-se do baixo consumo nacional. Segundo ele, a taxa per capita consumo de leite ano é de 172,6 litros por habitante. O recomendado pela Organização Mundial da Saúde é 200. “Quando nós conseguirmos avançar nesta questão, teremos uma maior circulação do produto dentro do país e uma redução desse excedente”, avalia.

Braun explica ainda que o Rio Grande do Sul tem uma característica peculiar. Além de ter uma superprodução, que tem dificuldade de ser absorvida pelo mercado interno, importa leite do Uruguai. Mais barato, o leite em pó que vem do país vizinho nem sempre vem das vacas latinoamericanas. “O Uruguai faz muita triangulação com o produto. Importa da Nova Zelândia e da Austrália e revende para o Brasil”, explica.

Braun destaca ainda outro problema: os escândalos da fraude no leite. Embora prime pela qualidade, o Vale do Taquari também foi atingido com as denúncias de adulteração do produto, que frearam, em todo o país o consumo. “Algumas pessoas têm medo de beber leite porque ele foi alvo de denúncias graves”, justifica. Os escândalos apontados pelo Ministério Público macularam a cadeia produtiva que tenta se reerguer.

Conforme um relatório feito pela Associação Gaúcha de Supermercados (Agas), no início do segundo semestre de 2013 aos primeiros seis meses de 2014, houve uma migração do consumo. Nos supermercados os clientes preferiram marcas de leite catarinenses, às produzidas no Estado. “Por ser um produto básico de consumo, a população não deixou de tomar leite, apenas optou por empresas de fora do Estado”, ressalta o presidente da Agas, Antonio Cesa Longo.

Exportação, um caminho a ser perseguido

O presidente executivo da Dália Alimentos, Carlos Alberto de Figueredo Freitas diz que a demora na autorização de processos de fabricação em Brasília trava a possibilidade de exportação para determinados mercados.

Segundo ele, a Rússia já demonstrou interesse pelos láteos nacionais. No entanto, o projeto da planta da Dália em Arroio do Meio jaze sobre uma mesa de um gabinete no Ministério da Agricultura Pecuária e Agronegócio (Mapa) no Centro do Poder. “Nesta situação temos que destacar que o problema é em Brasília. A atenção do Mapa no Rio Grande do Sul é totalmente o oposto. Nosso projeto logo foi recebido, protocolado e aprovado. O trâmite está parado na Capital Federal”, explica.

A planta da Dália em Arroio do Meio tem capacidade diária de processar 450 mil litros de leite em 50 toneladas de leite em pó. “Todo esse produto poderia ir para a Rússia, por exemplo, mas por falta da liberação federal, não temos nem previsão de colocar no mercado internacional nosso leite em pó”, diz.

Na relação comercial estrangeira, o Mapa é quem libera o produto ao mercado, depois de aprovar as condições da fábrica e do produto. Via governo federal, é feita a relação comercial com o país que busca pelo produto e só então são fechados os negócios.

Os novos mercados

Para o presidente executivo da Dália, o país teria destino à produção de leite no estrangeiro. Basta focar no destino certo. Hoje, com as condições de sanidade e qualidade do produto interno, o Brasil poderia vender leite em pó para a América Latina, Central, África e parte da Ásia. “Não adianta insistirmos no mercado norte-americano e europeu, pois neles há padrões de qualidade diferentes e existe uma autonomia na produção nessas regiões do mundo”, pontua.

Tratar o leite como um produto nobre

O diretor executivo do Instituto Gaúcho do Leite (IGL), Oreno Ardêmio Heineck diz que a cadeia produtiva leiteira precisa se desenvolver para o lado da qualificação. De acordo com ele, o leite é o único produto pecuário que o Vale do Taquari não exporta.

Para isso, Heineck tem uma explicação: investimento em sanidade e condições adequadas do rebanho leiteiro. Diferente da produção de suínos e de frangos, por exemplo, ondes regras bem definidas são o rito dentro das propriedades, o leite ainda é produzido com menor rigidez. “Enquanto em uma creche de suínos, só entra quem é autorizado e com roupa esterilizada, uma vaca é conduzida a sala de ordenha no meio do barro, com os tetos sujos”, compara.

Heineck aposta na ampliação dos programas de erradicação de doenças e no atestado sanitário em 100% dos rebanhos leiteiros como atrativo ao comércio internacional. “Esse é um dos objetivos do IGL. Dentro do Estado elevar ao máximo a qualidade de produção para que o Rio Grande do Sul se transforme em uma referência”, frisa.

Sobre o IGL

Criado em 2014, o Instituto Gaúcho do Leite é uma entidade formada por 35 órgãos e instituições ligadas ao setor lácteo do Estado, que tem por objetivo elevar a produção com qualidade do leite.

Recentemente, o IGL assinou um novo convênio com o governo do Estado, com vigência até 2016, para o investimento de R$ 5,7 milhões na qualificação da produção.

São atribuições do IGL

  • Coordenar o desenvolvimento e a promoção das políticas para o setor lácteo do Estado do RS, em todos os âmbitos: produtivo, sanitário, de elaboração, técnico, comercial, de promoção, de consumo, estrutural, organizacional, cultural, ambiental, jurídico, legal e institucional;
  • O IGL é um instrumento de gestão, organização e desenvolvimento da cadeia produtiva _ apoio às entidades representativas do setor;
  • Realizar o grande fórum da cadeia leite: discussão/consenso projetos prioritários, organização da pesquisa aplicada (centro de inteligência), banco de dados, cuidar executivamente de todos os interesses da cadeia leite;
  • A sua interação com o Fundoleite: a cadeia produtiva debate no IGL seus projetos prioritários a serem atendidos pelo Fundo, os apresenta a ele e este libera os recursos já depositados na conta do IGL;
  • O IGL coordenará a implantação dos Projetos e prestará contas. Tudo isto de acordo com o Programa de Desenvolvimento da Cadeia Produtiva do Leite do Estado do Rio Grande do Sul – Prodeleite/RS.

Crescimento maior que consumo

De acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 2001 a 2010, a produção de leite cresceu 82%. De 2000 a 2010, a população no Vale do Taquari cresceu 21%.

A comparação serve apenas para ilustrar que a produção é muito maior do que o crescimento vegetativo e essa diferença eleva a oferta de leite no mercado. “Nós precisamos tomar uma medida para abrir novos mercados, ou vamos nos afogar no leite produzido no Vale”, alerta o diretor executivo do IGL.

Associado ao consumo menor, o segundo semestre do ano é o período de safra do leite. É quanto se produz muito e em larga escala em todas as propriedades. O mesmo não ocorre no verão, por exemplo. “Esta também é uma situação para intervenção do IGL que tem como meta reduzir o excedente em época de safra por meio das exportações”, destaca Heineck.

Em um cenário otimista, o diretor executivo do instituto projeta o ano de 2015 como um momento promissor à produção. Segundo Heineck, a atuação do IGL será amplificada no próximo ano e os frutos dessa iniciativa que visa elevar o patamar da qualidade de toda a cadeia produtiva devem ser colhidos em 2016. “Criamos uma grande parceria com o Sebrae, Senai, Mapa e Embrapa na intenção de promover a qualidade. Essa qualificação vai começar em breve e, em dois anos, teremos resultados diferentes dos que os atuais e teremos sim condições de exportar nossos lácteos para mercados internacionais exigentes”, defende Heineck.

você pode gostar também Mais do autor

Comentários

Carregando...