Cadeira leiteria: Exigências forçam produtores a desistir

O fechamento dos postos de recebimento e resfriamento de leite da Promilk, em Estrela, causaram a exclusão de famílias da cadeia produtiva em Sério.

Conforme o empresário Delmo Rempel, por dia eram percorridos quatro municípios – Sério, Forquetinha, Boqueirão do Leão e Canudos do Vale para recolher uma média de 12 mil litros de leite de 120 produtores. Parte da matéria-prima ele mesmo comprava de famílias cuja oferta era menor, entre 10 e 50 litros, ao preço de R$ 0,77 o litro e revendia. “Quitei 70 mil litros sem receber um centavo da empresa.”

Após o fechamento do posto em Estrela, as rotas percorridas foram assumidas por outras empresas e cooperativas da região. Na comunidade onde mora faz 24 anos, 90% dos produtores foram excluídos, pois não se enquadram aos critérios de produção. Um deles é a instalação de tanques a granel e produção mínima de 50 litros diários.

As 43 famílias que não atenderam as exigências produziram juntas 15,6 mil litros no último mês, uma média de 12 litros por produtor. “É pouco, mas era a única fonte de lucro. Sem alternativas, migrarão para a cidade ou passarão fome se ninguém auxiliar.”

Segundo Delmo, a situação provoca um caos social na localidade. Com a idade avançada, sem sucessores, terras íngremes, impróprias para o uso de máquinas e sem projetos alternativos rentáveis a ponto de manter as famílias na lavoura, a maioria busca trabalho como diarista ou emprego em municípios vizinhos.

De saída para a cidade

O casal André Brandt, 33, e Adriana Maria Ferri, 24, tinha apenas duas vacas e a cada dois dia vendia uma média de 27 litros. “Pagávamos parte do rancho, conta de energia elétrica e gasolina para abastecer o carro”, conta Adriana.

A compra de um resfriador, construção de uma nova estrutura e aumento do plantel constavam entre as exigências propostas pela cooperativa que passou a recolher o produto desde outubro. A pouca oferta de mão de obra, problemas de saúde e alto investimento exigido fazem a família abandonar a atividade no fim do mês. “Vamos tentar a sorte na cidade.”

A família Ludwig pretende ampliar a produção. Na semana passada, comprou um resfriador a granel para atender a primeira exigência da indústria para qual vende o leite. O próximo passo é investir em genética e criação de terneiras. Por dia, a produção chega a 75 litros com um plantel de 15 vacas. A meta é duplicar a oferta até o primeiro semestre de 2015. “Com qualidade temos a garantia de melhor preço”, aponta Ronaldo.

Além do leite, a família cultiva 50 mil pés de fumo e aposta no reflorestamento.

“Complicado, mas era previsível”

Para o diretor-executivo do IGL, Ardêmio Heineck, a exclusão de produtores era previsível depois do trabalho iniciado em 2005, tendo por prioridade a oferta de uma matéria-prima de qualidade. Comenta que após as fraudes o consumidor ficou mais exigente e a indústria necessita se adequar.

O IGL, em parceria com outras entidades ligadas ao setor, busca identificar e ajudar os produtores a atender as normas. “Ele precisa querer evoluir. Aliar qualidade e quantidade. Produzir fora dos padrões propostos pela IN 62 é inadmissível.”

De acordo com Heineck, as cooperativas oferecem condições do produtor atender as exigências com assistência técnica e oferta de crédito. Sugere um trabalho conjunto entre municípios para criar outras alternativas de renda para quem não quiser produzir dentro das regras propostas pela cadeia leiteira.

Lauro Baum, diretor-executivo do STR de Lajeado e integrante da Fetag, diz que chegou a hora de estruturar o setor como se fez com o de suínos e frangos há alguns anos. “O agricultor tem que investir e se qualificar, ou abandona a atividade.” Lamenta a exclusão, mas entende ser esta uma das únicas formas de a indústria garantir a oferta de um produto de qualidade e conseguir abrir novos mercados para o leite e derivados tanto para outros estados como países.

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