Cadeia leiteira: essencial à saúde, à vida no campo e à economia do Vale

Sentado em uma cadeira de plástico na sacada de sua casa, Décio Walmir Gerhardt (55) faz uma pequena pausa em sua rotina de trabalho. Ao longe, observa uma das 25 vacas leiteiras que cria em sua propriedade de 15 hectares, no Bairro Carneiros, em Lajeado. Ao lado da esposa, Marli Marlene Gerhardt (54), cuida de uma produção de leite que gira entre 750 e 800 litros a cada dois dias – ou cerca de 12 mil litros por mês.

A mulher já tentou trabalhar em fábrica, mas não se adaptou à clausura das quatro paredes. “Na colônia, sempre fomos acostumados a ser livres”, explica. Já o marido conta que nunca pensou em trabalhar fora do campo. “Vem de família. Teve um tempo que a gente plantava soja, milho, mas faz uns 10 anos que produzimos só leite”, explica. Culpa, segundo ele, da instabilidade do clima.

Segundo Décio, o trabalho é feito com amor. “Se não fosse, já tinha desistido”, brinca. “É que nós sabemos a importância que nosso trabalho tem, que se precisa de alguém que faça a lida diária e cuide do leite. As indústrias sabem também, e as cooperativas, mas a maioria das pessoas, não”, acredita.

Força do setor

A família Gerhardt é peça fundamental de uma importante engrenagem que faz girar a economia gaúcha: o setor de produção, envase e comercialização de leite. Como explica o presidente do Sindicato da Indústria de Laticínios e Produtos Derivados do Estado do Rio Grande do Sul (Sindilat/RS), Alexandre Guerra, o Estado é o segundo maior produtor de leite do Brasil, responsável por 13% da produção nacional.

“E apenas 40% disso é consumido no Rio Grande do Sul. O restante, exportamos para o resto do país e para fora do Brasil. Isso demonstra a força do setor para a economia como um todo. São 100 mil famílias, atualmente, ligadas diretamente à produção e industrialização, fora o restante da cadeia”, exemplifica.

De acordo com Guerra, são produzidos no Estado 4,6 bilhões de litros de leite por ano – o que representa quase 13 milhões de litros por dia. “E tudo isso começa na casa do produtor, que trabalha para entregar uma produção diferenciada às indústrias. A partir disso, com essa matéria-prima de qualidade superior, as indústrias e cooperativas trabalham para inovar e criar produtos com valor agregado. Assim, a indústria mantém seu crescimento, buscando despertar novos hábitos de consumo, o que vai exigir mais volume, aumentar a renda do produtor e o faturamento do setor. Um depende do outro neste ciclo”, justifica.

Para além do leite

Criar novos hábitos de consumo é essencial para a manutenção do setor. Segundo dados da Associação Gaúcha de Supermercados (Agas), a comercialização de leite, queijos e derivados corresponde por 11% dos produtos vendidos nos estabelecimentos gaúchos. De acordo com o presidente da Associação, Antonio Cesa Longo (55), o leite ainda é responsável por impulsionar as vendas de cafés, achocolatados, frutas (para batidas) e outros produtos alimentícios. “É um produto amplamente promovido por ser de necessidade básica e pelo fato de ter um mercado muito competitivo, com diversas marcas disputando espaço.”

E nem mesmo a crise financeira conseguiu abalar de forma profunda a produção de lácteos, segundo Guerra. “Quando me perguntam se tem diminuído o consumo de leite, eu sempre pergunto de volta: ‘Você está emagrecendo? Deixou de se alimentar?’ O setor da alimentação é o último a ser afetado pela crise, e tem se trabalhado muito para que possam ser abertos novos mercados, como a Rússia e a China. Se 60% do nosso leite precisa ser exportado, precisamos nos esforçar para sermos competitivos lá fora”, reflete.

Languiru: R$ 14 milhões por mês

Na região, estão instaladas seis indústrias de laticínios. Entre elas, multinacionais como a francesa Lactalis, em Bom Retiro do Sul, e a BRF-Brasil Foods, em Teutônia.

De acordo com o presidente da Cooperativa Languiru – também sediada na região -, Dirceu Bayer (61), a produção de leite é o “carro-chefe” no mix com mais de 500 produtos da empresa. Por mês, a organização fatura R$ 14 milhões com a venda de leite e seus derivados. “E crescemos 15% ao ano, tanto na captação, quanto no processamento de leite. Nos próximos dois anos, nossos investimentos estão concentrados no setor. A ideia é abrir uma fábrica de queijos, completando o rol de derivados em nossa cooperativa.”

Bayer também acredita que a produção leiteira tem contribuído para a permanência do jovem no meio rural. Segundo ele, a idade média dos produtores fica na casa dos 50 anos. “Isso quer dizer que existem muitos filhos de produtores assumindo os negócios da família e investindo na produção do leite.”

Ferramentas

Segundo o presidente do Instituto Gaúcho do Leite (IGL), Gilberto Piccinini (56), nos últimos anos, o Estado tem obtido crescimento de produtividade e de produção em virtude do melhoramento genético. Além disso, o uso adequado da nutrição animal e da adoção de novas tecnologias, com a inclusão da gestão em propriedades, também colaboram para essa expansão.

A produção utiliza majoritariamente mão de obra familiar e é relativamente bem distribuída pelo território, localizando-se principalmente nas regiões Norte e Nordeste do Estado. “O Rio Grande do Sul possui 94% dos municípios que contam com algum tipo de atividade leiteira”, acrescenta.

Importante para o corpo

Segundo a mestre em Bioquímica e professora do curso de Nutrição da Univates, Simara Rufatto Conde, o leite é um alimento completo para o organismo, composto de carboidratos – que se revertem em energia -, proteínas e por todos os aminoácidos essenciais. “E é também uma importante fonte de cálcio, que é muito bem absorvido pelo organismo. Além disso, é um alimento pouco calórico e tem a propriedade de causar saciedade. As pessoas que tomam leite não precisam comer tanto, porque ele possui carboidratos, proteínas e lipídios, o que nos deixa um tempo maior sem sentir fome”, reforça.

Para manter o alimento em uma dieta equilibrada, a professora explica que se recomenda quantidades diferentes de leite para cada faixa etária. “Para crianças de 1 a 3 anos, a necessidade é de 500 mililitros por dia, o que corresponde a dois copos. Entre 3 e 9 anos, 800 mililitros. Já para um indivíduo adulto, a recomendação é de 1 litro de leite ou derivados. É um ótimo alimento, só contraindicado para quem tem intolerância a lactose.

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