Ato relembra vítimas de acidentes na BR-386

A rodovia de maior fluxo do Vale do Taquari ficou parada entre Lajeado e Forquetinha no fim da tarde da última sexta-feira, dia 10. Manifestantes bloquearam o tráfego de veículos das 16h às 18h, em protesto pela morosidade do Dnit em reestruturar o acesso a Conventos. Foram nove quilômetros de engarrafamento – 5,5 em direção a capital e 3,5 ao interior.

Grande parcela dos motoristas conseguiu desviar pelo interior dos bairros, condição que evitou a formação de filas mais extensas. Mas a paralisação prejudicou também o trânsito em outros pontos da cidade, como no acesso da BR para a ERS-130.

Quase cem pessoas participaram da manifestação, realizada na interseção da rodovia com a ERS-421 – ligação aos municípios de Forquetinha, Canudos do Vale, Sério e Boqueirão do Leão. Moradores da região empunharam cartazes com frases de insatisfação pelos seguidos acidentes no trecho e cobrando agilidade em investimentos por parte da autarquia federal.

Caminhões e carros foram atravessados nos acessos laterais à BR-386 e um caminhão, que serviu de palco para discursos, ficou sobre o cruzamento para Conventos. Apenas ambulâncias e veículos de resgate puderam passar pelo bloqueio. A atividade começou com uma espécie de culto ecumênico, em que um padre e dois pastores fizeram orações por segurança e lembraram das vítimas de acidentes fatais.

O relato de uma moradora de Estrela comoveu os participantes. Adelaide Schröeder, 59, lembrou do acidente em que sua filha morreu. O fato aconteceu às 6h20min do dia 2 de novembro de 2012. Magali Schröeder da Silva, 21, cruzava a rodovia em um Fiat Uno quando foi atingida por um caminhão de ração. “Ela sabia dirigir bem, mas não deve ter percebido o quão rápido estava outro veículo, que seguia acima do permitido”, aponta o pai, Sebastião da Silva, 48.

Instantes depois do acidente, uma agente da PRF telefonou para Adelaide avisando. A mulher não acreditou e iria desligar, mas Sebastião pegou o aparelho. “Achamos que era um trote, mas depois caiu a ficha.” Os pais foram de prontidão para o local e se depararam com o corpo de Magali estendido no asfalto, coberto por uma capa. “Só os pés dela estavam de fora. Apenas naquele momento percebi que tinha perdido a pessoa que mais amava. Ela era tudo pra mim.”

Abalada pela perda, a família mudou de endereço. Adelaide não conseguia relembrar dos momentos com Magali na moradia. O imóvel foi alugado e o casal locou uma casa em outra região de Estrela. “Cogitamos sair daqui, mas nada vai trazê-la de volta. Está na hora de fazerem alguma coisa, para que mais famílias não sofram o que estamos sofrendo”, cobra a mãe. Dois meses antes, a colisão entre um carro e uma bicicleta motorizada matou Licério Auler no mesmo local.

Relato semelhante faz Batista Feil, 54. No dia 27 de fevereiro deste ano, a filha Ana Paula Feil, 25, seguia de motocicleta no sentido Forquetinha – Lajeado quando se acidentou com um caminhão. O fato aconteceu a cerca de 70 metros de onde Magali morreu. A jovem foi levada com vida ao HBB, onde permaneceu durante um mês na UTI. “Se houvesse um viaduto ou um túnel no local, talvez ela tivesse sobrevivido. Nada trará ela de volta. Mas podemos evitar que outros casos aconteçam”, aponta Batista.

Motoristas reclamaram

Sílvio Luís Piva Boelter, 39, era o primeiro motorista de frente aos manifestantes no sentido interior-capital. O caminhoneiro saiu às 2h30min de Não-Me-Toque e pretendia chegar em casa, em Cachoeirinha, por volta das 18h.

Acompanhado do filho, preferiu esperar dentro do caminhão até a liberação da pista. “Acho que os protestos são válidos. Eles têm razão, porque essa rodovia é horrível. Mas não podem prejudicar os trabalhadores. As pessoas que deveriam estar aqui nem vão ficar sabendo.”

Por diversos momentos, condutores e até a PRF sugeriram aos manifestantes liberar parte da pista. Mas o grupo foi inflexível. “Nos deixando passar, todo mundo preso na rodovia iria entender o motivo do protesto. Iriam ver as faixas”, ressaltou Clarel Selbach, 63, de Novo Hamburgo. O motorista seguia para Passo Fundo, onde visitaria um parente adoecido.

Solução a longo prazo

Na terça-feira, dia 7, o governo de Lajeado recebeu a engenheira do Dnit, Terezinha Barth, e representantes da empresa STE. O grupo apresentou ao prefeito Luís Fernando Schmidt estudo de viabilidade para futuro projeto de duplicação da rodovia federal.

De acordo com o secretário de Governo, Auri Heisser, há meses são debatidas questões pontuais sobre um plano de mobilidade para a BR-386. “Devemos tirar o trânsito de Lajeado da BR-386. Por isso pensamos em ruas paralelas e em grandes obras, como viadutos, túneis e elevadas”
A principal obra em debate abrange a região do bairro Conventos. Segundo Heisser, no trecho pode ser feita uma elevada. “Tudo isso está em análise e o projeto de duplicação levará tempo para sair do papel. Mas estamos cobrando agilidade e a União entende essa demanda.”

Em paralelo, o secretário garante ser feita pressão diante do Dnit para liberar a construção do refúgio central apresentado ainda no primeiro semestre. A morosidade, segundo ele, envolve uma repactuação entre a empresa Conpasul e a autarquia. A obra seria incluída em atual contrato de reformas da BR.

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