Alta na importação de leite preocupa cadeia produtiva no Vale

A importação de leite dos países que integram o Mercosul tem preocupado representantes da cadeia láctea no Estado e na região, responsável por 9% da produção no Rio Grande do Sul. O temor é de que o aumento registrado desestabilize o mercado, já que a exportação não tem registrado igual crescimento.

Conforme dados do Sindicato da Indústria de Laticínios e Produtos Derivados do Estado do Rio Grande do Sul (Sindilat), de janeiro a julho deste ano a exportação foi de US$ 150.679.143 e a importação de US$ 247.507.916, resultando em um saldo negativo de US$ 96.828.773.

O secretário-executivo do sindicato, Darlan Palharini, diz que um dos casos mais problemáticos está ligado ao Uruguai – atualmente o maior exportador de leite em pó para o Brasil. “No mês de julho, o preço do quilo importado de leite em pó chegou ao mercado brasileiro em R$ 5,50. Para que nós pudéssemos concorrer com esse preço, não teríamos como pagar mais do que R$ 0,40 ou R$ 0,45 o litro”, avalia. Segundo Palharini, a diminuição para concorrer com o valor do leite do exterior ocasionaria uma redução de quase 50% do que já está sendo pago ao produtor.

Assessor de Política Agrícola da Federação dos Trabalhadores na Agricultura no Rio Grande do Sul (Fetag-RS), Márcio Roberto Langer concorda que a situação tem se mostrado preocupante. Para ele, os produtos entram de uma forma muito mais competitiva no Estado em função da diferença que existe no custo da produção e nas diferenças tarifárias. “Ele entra com um preço menor e causa um desequilíbrio no mercado interno”, aponta.

De acordo com Langer, no momento em que o problema estoura no produtor – e na indústria – o próprio consumidor acaba pagando mais caro a longo prazo: “Por mais que se pague barato durante alguns dias, ou por algum período, isso fatalmente à frente acabará tendo retorno, pois desestimula a produção interna. Todas essas intervenções são prejudiciais ao mercado.”

Busca de soluções

O Sindilat, a Fetag-RS e ainda o Instituto Gaúcho do Leite (IGL) estão em tratativas com o Ministério da Agricultura para que haja um maior rigor nas importações de lácteos e uma reversão ao cenário imposto. Reuniões já estão acontecendo com a ministra, Kátia Abreu. O intuito é de que os números se mantenham na média histórica de outros anos.

Para o Sindilat, ainda, é preciso que se pense no aumento da exportação – já que há condições para isso. De acordo com Palharini, entretanto, o maior empecilho no momento é o preço do produto no mercado internacional, hoje em US$ 1.850 a tonelada. “Para o custo do Brasil deveria estar em US$ 3,5 mil a tonelada, em média”, lamenta.

Vale também deve sentir impactos

Um dos principais produtores de lácteos do Estado, o Vale do Taquari deverá sentir impactos pelas altas exportações do Mercosul, caso os números se mantenham. Contudo, não da forma tão violenta quanto o resto do Estado por causa de sua estrutura. Pelo menos é o que acredita o diretor-executivo do IGL, Ardêmio Heineck.

Conforme o diretor, as empresas instaladas na região estão bem consolidadas, o que deverá causar uma situação melhor: “Também deverá sentir, mas talvez não tanto quanto o resto do Estado”, diz.

Segundo Heineck, as cooperativas Cosuel e Languiru são muito fortes, além das outras empresas menores aqui instaladas. Assim, embora registrem perdas financeiras, fatalmente, quem acabará tendo mais refletida a desvalorização é o produtor. “Pode acabar recebendo menos do que já está”, avalia.

O diretor-executivo não acredita que o aumento de importações de leite seja uma consequência das denúncias de fraudes e má gestão que resultaram na Operação Leite Compen$ado, há cerca de dois anos, pelo Ministério Público.

Segundo ele, o mercado mundial teve super oferta – com a Rússia e a China comprando menos leite – e o preço do produto em pó caiu. Isto teria tornado o produto mais atrativo para o mercado.

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