“Agricultura familiar não é e não pode ser sinônimo de agricultura pobre”

“A força da união faz a diferença, e nisso se insere o trabalho das cooperativas. O cooperativismo tem a capacidade de gerar escala produtiva aos associados, agregando valor e distribuindo valor. É um ramo da economia que tem tudo para dar certo, desde que busque incessantemente a profissionalização da sua gestão.” As palavras são do secretário adjunto de Estado da Agricultura e Pesca de Santa Catarina, Airton Spies, que palestrou sobre a importância dos contratos e parcerias para o sucesso dos empreendimentos dos produtores agropecuários.

Ele foi um dos convidados para o Circuito de Gestão e Inovação no Agronegócio, realizado pelo Instituto de Educação no Agronegócio (I-UMA), com apoio da Cooperativa Languiru. A quarta etapa do evento ocorreu no dia 04 de agosto e teve por local o Auditório Central do Colégio Teutônia. Teve por objetivo estimular a interatividade e promover o conhecimento, com debates sobre o momento e o futuro do agronegócio.

O evento vai percorrer dez cidades que representam polos produtivos do Rio Grande do Sul e a quarta etapa em Teutônia integra a programação que comemora os 60 anos da Cooperativa Languiru, celebrados no próximo dia 13 de novembro.

Importância do cooperativismo

Para o presidente do I-UMA, José Américo da Silva, as cooperativas são essenciais para o desenvolvimento do agronegócio e da economia como um todo. “Prestes a completar 60 anos, a Languiru é exemplo no cenário do cooperativismo brasileiro, com destacada contribuição para o agronegócio”, enalteceu. Nesse contexto, Silva ressaltou o trabalho do I-UMA para a educação institucionalizada no agronegócio. “Queremos promover a educação do campo no agronegócio e, com a união de esforços e parcerias, podemos encontrar as melhores estratégias na capacitação de jovens empreendedores rurais”, disse.

Troca de experiências

O presidente da Languiru, Dirceu Bayer, classificou o evento como uma grande oportunidade para reafirmar a importância do agronegócio. “Estamos reeditando o evento em Teutônia pela sua contribuição na formação e troca de experiências. É um trabalho especial voltado aos jovens e produtores rurais, que acreditam na atividade e permanecem no campo. Vem complementar trabalho realizado pela Languiru com o seu Programa de Sucessão Familiar, que forma a primeira turma de estudantes no final de 2015 e cujo projeto terá continuidade no próximo ano por entendermos que há a necessidade de formarmos novas lideranças para dirigir as entidades cooperativas e desenvolver o agronegócio e a agricultura familiar.”

Contratos e parcerias

O secretário adjunto de Estado da Agricultura e Pesca de Santa Catarina, Airton Spies, palestrou sobre a importância dos contratos e parcerias para o sucesso dos empreendimentos dos produtores agropecuários, para ele “um complexo e importante elo do agronegócio”.

Após breve relato histórico da atividade agropecuária, que anteriormente era baseada na mão de obra e na terra, com famílias numerosas como fator preponderante para o sucesso da atividade, Spies classificou o atual momento como “a era da inovação tecnológica”. Para ele, hoje, “a agricultura está baseada no capital, na tecnologia, no conhecimento, na informação. Os desafios são outros e não há espaço para amadores. A agropecuária é algo muito sério, não pode ser vista como um hobby”.

O secretário apresentou diferentes modelos de contratos, que segundo ele são a base do sucesso das principais cadeias produtivas do agronegócio no Sul do Brasil. “Os de maior progresso são do setor de avicultura, suinocultura, tabaco e leite. A formalização das parcerias permitiu a transformação de agricultura familiar artesanal em agricultura familiar empresarial. Em outras palavras, nossa propriedade rural deve ser vista como uma empresa, onde se gasta dinheiro para ganhar dinheiro. Esta é a função do empreendedor, que se assemelha ao que temos nas empresas formais que encontramos no meio urbano”, explicou.

“A agricultura familiar não é e não pode ser sinônimo de agricultura pobre, merece ser respeitada pela sua grande importância e pelo trabalho fundamental que exerce pelo desenvolvimento do agronegócio brasileiro. É nosso desafio transformar pequenas propriedades em grandes negócios, a agricultura familiar precisa se dedicar a atividades de alta densidade econômica”, chamou a atenção.

Entre outros assuntos, Spies ainda falou da terceirização de serviços no meio rural e da necessidade de estarmos atentos às necessidades dos jovens para que esses permaneçam no campo. “Um produtor de sucesso tem como características o empreendedorismo e o profissionalismo, a qualidade na tomada de decisões, considerando que administrar exige a tomada de decisões seguras. Quem não controla, não administra. Quem não planeja, também não gerencia.”

Por fim, o secretário reafirmou a importância da educação e da atenção à legislação que norteia a atividade rural. “Precisamos usar a ciência, a tecnologia e o conhecimento para produzir com responsabilidade, consciência e sustentabilidade. Produzir preservando e preservar produzindo. Nisso as relações contratuais e as parcerias são muito úteis para que se possa investir com mais coragem e saber para quem produzimos. Não tenham medo de formalizar as relações contratuais. País que não coloca conhecimento na cabeça das pessoas está fadado a não ser competitivo”, concluiu.

Conflito de gerações

O consultor em pesquisas e gestão empresarial da Macrovisão (Consultoria, Assessoria e Treinamento), Lucildo Ahlert, apresentou o trabalho que está sendo desenvolvido com associados e filhos de associados no Programa de Sucessão Familiar da Cooperativa Languiru. Para ilustrar alguns resultados, o jovem Diego Dickel, que participa das atividades do Programa e possui propriedade em Linha Gamela, município de Teutônia, apresentou projeto que desenvolveu e pretende implementar na propriedade da família.

Ahlert apresentou a sistemática de trabalho do Programa de Sucessão Familiar da Languiru, classificando a iniciativa da cooperativa teutoniense como um plano de sucessão prático. “O principal ganho de tudo isso é que continuamos a ter uma família, ou seja, podemos evitar diversos conflitos de gerações e trabalhar a sucessão gradativamente. Além de preparar os filhos para o empreendedorismo, também preparamos os pais para esse processo, abrindo horizontes de negócio para a família. A família precisa sentar e conhecer os projetos dos jovens e o sucedido deve estar preparado para dar oportunidade aos filhos”, exemplificou o palestrante.

Para ele, o Programa da Languiru pensa a sucessão de diferentes maneiras, com a formalização desse processo, estimulando a gestão compartilhada entre pais e filhos, com sistemática de remuneração e administração do caixa, transferência patrimonial e negócios em parceria. “No passado, os pais se preocupavam em juntar dinheiro para poder comprar uma propriedade para os filhos no dia do casamento e, esses, a partir de então, passariam a ter sua independência. Hoje, a preocupação é com a manutenção do negócio, com os filhos tendo a oportunidade de estudar. Os filhos do passado sabiam que não ganhariam dinheiro até o casamento e, hoje, ficam no dilema: permanecer da área urbana ou rural, buscar a independência financeira em casa ou fora da propriedade”, citou Ahlert, acrescentando que, para muitas famílias, falar de sucessão é um tabu. “Em muitos casos a solução acaba ocorrendo por herança, com brigas entre os familiares. Hoje, com a longevidade, o processo sucessório ocorre de forma tardia, quando o ideal seria preparar os filhos para o empreendedorismo, transformando ideias em negócios”, disse.

Encerrando a programação da tarde de palestras, o jovem Diego Dickel apresentou projeto que desenvolveu e pretende implementar na propriedade da família. “É um projeto real de sucessão e fico extremamente feliz em ver os jovens aprendendo, lidando com conceitos econômicos e se preparando para serem realmente gestores no futuro. Esse trabalho busca criar uma luz na porteira, com a possibilidade de desenvolver negócios”, concluiu Ahlert.

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