Agricultura do Vale busca culturas alternativas e menos agrotóxico

Os diferentes cenários que se desenham no horizonte de um mercado globalizado obriga, com frequência, a adoção de mudanças de posturas, e leva pessoas a se adaptarem a uma nova realidade. Isso ocorre com quase a totalidade das atividades econômicas – inclusive na agropecuária.

Culturas que eram tradicionais na agricultura familiar têm cedido espaço para novas apostas que significam alternativas de renda para quem precisa tratar a atividade como se fosse uma empresa. Isso, por exemplo, já ocorre com a fumicultura: famílias que possuíam neste cultivo um ganho anual, buscam em outras atividades, como a produção de frutas, verduras ou na atividade do leite e do frango, novas opções de ganhos.

Marcelo Brandoli, da Emater/RS-Ascar, lembra que o primeiro passo a ser perseguido é a profissionalização dos que querem migrar para fruticultura, horticultura, gado de leite e produção de pescado. Todas estas atividades são destaque quando se fala no cultivo de tabaco, como cultura tradicional em diversos municípios.

O engenheiro agrônomo Lauro Bernardi revela que o tabaco tem se reduzido para dar espaço a execução de projetos relacionados a hortaliças e à produção de leite, como novas formas de renda. Segundo ele, no entanto, isso não significa a substituição da lavoura de fumo, mas sim, sua redução.

Bernardi ainda salienta que, para mudar-se de atividade, é fundamental a profissionalização na área em que se deseja atuar. “Isso é uma estratégia de sustentabilidade. Quando uma atividade não dá renda, uma segunda, dá”, coloca ele.

Roca Sales: o exemplo de maior destaque

Um dos municípios que mais se destaca nesta migração de atividades, no Vale do Taquari, é Roca Sales, onde havia uma expressiva área ocupada com tabaco. Aos poucos, alguns produtores optaram por outras opções, como a piscicultura, fruticultura e bovinocultura de leite.

A produção de hortaliças ganha uma importância cada vez maior, uma vez que a região ainda adquire mais de 80% dos hortigranjeiros aqui consumidos, vindos de outras regiões do Estado. Este é um setor com grande potencial e que ainda terá muito espaço para expandir-se. O cultivo do moranguinho também está em expansão. comenta o agrônomo Lauro Bernardi.

Ivanir Boni, que trabalha em parceria com o pai Elígio e a esposa Rosane na zona rural de Roca Sales, apesar dos tropeços iniciais comemora por ter apostado na fruticultura. A família se dedicava à lavoura de fumo há 24 anos em Linha Marechal Hermes. Mas os resultados prometidos pela indústria não se confirmaram, o que fez com ela buscasse novas opções. Após abandonar o cultivo, os Boni apostaram na produção de pêssego e nectarina, num total de 10 mil pés, mas a tentativa também foi frustrada em virtude de o clima não se mostrar favorável.

A aposta seguinte foi no plantio de uva, caqui, goiaba, ameixa e bergamota, além de investir em dois tanques com criação de carpas. Vencidas as dificuldades iniciais, Ivanir mostra-se satisfeito com os resultados da produção que é comercializada junto a fruteiras e supermercados, além de fornecer frutas para a Merenda Escolar e à Feira do Produtor, realizada todas as semanas na cidade.

A fruticultura, que ocupa cerca de oito hectares da propriedade, compartilha área com a produção de milho, para abastecer as criações de suínos e aves para o consumo familiar.

Outros exemplos de produtores bem sucedidos são Ademir Melott e José Maria Giora, residentes na mesma localidade. Melotti lidava com agroquímicos para tocar a lavoura de tabaco – o quê, confessa, se refletia muito na saúde da família. Tanto no plantio, quanto na condução da lavoura e na colheita, sempre havia contato, de alguma maneira, com produtos químicos. Ao sentir os prejuízos desta rotina, abandou a atividade e passou a cultivar uva, bergamota e laranja e pêssego.

Saiba mais

Segundo o chefe do escritório da Emater/RS-Ascar de Roca Sales e técnico em agropecuária, Deoclesio Piccoli, na década de 1980, o município possuía uma área superior a 500 hectares destinada à produção de tabaco. Somente com a união dos produtores, pesquisa de mercado, escolha de variedades, diversificação de produção de frutas na propriedade da agricultura familiar e integração entre produção e comercialização foi possível executar este trabalho de mudança da matriz produtiva e a transição entre a fruticultura e o tabaco. Salienta também que esse trabalho não acontece de um ano para outro, mas sim com um envolvimento sério e comprometido entre todas as lideranças municipais. “Nós levamos mais de 20 anos para que esse sonho se tornasse realidade”, finaliza.

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