Agricultores de Doutor Ricardo apostam em alternativas em relação à produção de tabaco

Como forma de encontrar alternativas para o cultivo do tabaco, tradicional em Doutor Ricardo, no Vale do Taquari, alguns agricultores do município têm apostado em outros sistemas produtivos. É o que ocorre com o casal Nelsi e Rosa Venzo, da localidade de Linha Bonita Alta. Produtores de fumo há muitos anos, resolveram apostar no cultivo de hortaliças, no final do ano de 2013, após uma reunião, que contou com a participação da nutricionista da Prefeitura, Eliane Zanere Giacobbo. Na ocasião, foram incentivados pela profissional a produzir hortaliças que seriam comercializadas para as escolas do município.

“No começo ficamos meio receosos, pois não sabíamos a quantidade certa para plantar e quais os cuidados mais básicos de cada planta”, recorda Rosa. Ainda que fosse experiente em plantio de hortaliças para o consumo da família, a nova responsabilidade deixava a produtora um pouco receosa. A apreensão logo foi embora quando as primeiras entregas de batata-doce, couve-flor, brócolis, cenoura, beterraba e repolho foram feitas, com o apoio da Emater/RS-Ascar e da Prefeitura. “Somente em batata-doce, foram entregues mais de três mil quilos nesse primeiro ano”, comemora a agricultora.

Os números positivos animam o casal a investir, até o final do ano, em uma estufa, o que garantirá a qualidade dos produtos e a permanência da safra – inclusive para aqueles cultivos menos tradicionais no verão, caso da couve-flor e dos brócolis. As exigências do novo sistema produtivo, aliadas a paixão pela produção de alimentos livres de produtos agroquímicos – fruto de um processo de transição agroecológica – fizeram com Nelsi e Rosa decidissem abandonar a produção de fumo. “Até a safra do ano passado eu tinha plantado 15 mil pés de tabaco em uma área de 1,5 mil hectares”, ressalta Nelsi.

Para o técnico em agropecuária da Emater/RS-Ascar, Paulo Severgnini, a descoberta de alternativas em relação ao tabaco, por parte dos produtores, é um processo considerado positivo. “Muitos agricultores apostam exclusivamente no cultivo do fumo, ficando sujeitos às perdas decorrentes de uma eventual frustração de safra, algo que não ocorre em uma propriedade diversificada”, avalia. Ainda assim, Severgnini ressalta haver, em Doutor Ricardo, uma área de cerca de 400 hectares de tabaco. “Muitos permanecem na atividade pela boa rentabilidade e pela possibilidade de rotacionar as culturas, durante o ano”, diz.

Outro produtor que abandonou completamente o cultivo de tabaco foi o jovem Fábio Júnior Secchi, da localidade de Linha Leopolda. Estudante do curso de Engenharia Florestal fez uma proposta ao pai, Delmir: retornaria a propriedade, depois de anos trabalhando em uma empresa de tecnologia, em Lajeado, desde que a produção de fumo fosse deixada de lado. Atendendo a solicitação do filho, a família Secchi encontrou na bovinocultura leiteira, a alternativa que procurava. “É um manejo muito menos penoso e muito mais saudável”, avalia o jovem, de apenas 25 anos.

Cheio de planos, Secchi já pensa em aumentar o rebanho, que possui, atualmente, 12 vacas em lactação, produzindo uma média mensal de 6,5 mil litros de leite. “A minha ideia, após a construção de uma nova sala de ordenha e da melhoria dos equipamentos da propriedade é ter de 30 a 40 vacas, produzindo 18 mil litros de leite por mês”, projeta. Como forma de atingir a estes objetivos, o jovem se dedica de forma permanente a aquisição de conhecimentos. “Além de estar finalizando a faculdade, costumo fazer cursos e participar de outras capacitações na área, que possam me qualificar”, ressalta.

Quem vê o jovem falando, mal imagina que o retorno à propriedade, se deu recentemente, em junho. “Se ficasse na cidade, trabalhando na área em que vou me formar, ganharia a metade do que ganho aqui e isso que estou falando só do leite”, observa Secchi, que lembra ainda que a família também trabalha com silvicultura, produção de milho e cultivo de erva-mate. “Meu objetivo é tornar a nossa propriedade, um modelo para outras”, diz. Sobre a produção de fumo, abandonada há apenas dois anos, o jovem lembra que a família chegou a plantar 40 mil pés, nas maiores safras. “Mas os riscos do cultivo não compensam, não voltaria para isso”, finaliza.

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