À beira da ferrovia, uma estação abandonada

“Esse lugar é assombrado”, diz uma das mensagens pichadas na parede da subestação férrea de Muçum. A impressão que fica ao percorrer o prédio abandonado, porém, é de que nem mesmo os fantasmas costumam visitar o local. Construída na década de 1980, a estrutura compõe a chamada Ferrovia do Trigo, que liga Roca Sales a Passo Fundo. Mas há quase duas décadas o trem apenas passa pelo município, sem a possibilidade de parar para receber carga ou passageiros.

O mato circunda a linha férrea, sinalizada por uma placa amassada que indica o início do perímetro urbano. Do outro lado da ferrovia, outra placa, quase apagada, informa o nome da cidade. Ao longe, Juarez Carlos Pestille (49) caminha em meio aos trilhos. “Estava ali na plantação vendo os milhos”, conta ele, referindo-se à sua propriedade colocada à margem da ferrovia.

Abandonada

Morador de Muçum há 22 anos, o encantadense construiu sua casa à beira da estrada de ferro. Dali, vê o trem passar diariamente pela subestação local – sem nunca parar. “Essa estação funcionava bem, as pessoas usavam, tinha até um guarda que cuidava dali. Mas depois da privatização, ficou abandonada. Está toda destruída”, lamenta.

Enquanto ruma para casa acompanhando o trajeto da linha de ferro vazia, Pestille imagina como seria a revitalização do prédio em desuso. “Nunca ninguém me incomodou, mas tem uma ‘gurizada’ que usa para se drogar, outros que passam a noite. Tinha até uma senhora morando ali por um tempo. Seria muito bom se arrumassem aquela estação para que voltasse a carregar passageiros. Esse lugar voltaria a ter vida.”

À espera de garantias

Administrados pela América Latina Logística (ALL), os trilhos de Muçum continuam em atividade para transporte de carga e fazem parte do projeto do Trem Turístico do Vale do Taquari. Além do município, Estrela, Colinas, Roca Sales, Dois Lajeados, Vespasiano Corrêa e Guaporé deverão compor o roteiro turístico ferroviário, em planejamento desde 2014 e que ainda aguarda acordo para entrar em funcionamento.

Mas para que a subestação de Muçum possa se tornar ativa neste projeto, precisará de restauração. Mais do que pintura para cobrir as pichações, é necessário o conserto dos vidros quebrados, reforma dos banheiros (um deles com vazamento de um antigo chuveiro) e instalação de novas portas.

Como explica o presidente da Associação dos Municípios de Turismo da Região dos Vales (Amturvales), Leandro Carlos Pitol, os trâmites burocráticos para instalação do roteiro ainda estão em discussão. “Os cuidados das subestações ficam sob responsabilidade das prefeituras. Vários municípios estão com problemas nas estruturas e terão que consertar. Os prefeitos estão esperando a garantia de que o Trem Turístico virá para começarem os investimentos”, esclarece. A Amturvales faz a mediação entre os municípios e a Serra Verde Express, empresa que fará a prestação do serviço.

O outro lado

Com autorização do Ministério do Transporte garantida, o prefeito de Muçum, Lourival Seixas, aguarda liberação do Departamento Nacional de Infraestrutura Terrestre (Dnit) para reformar a subestação do município. “Precisamos do comodato final. A questão do Trem Turístico está encaminhada, deve começar no segundo semestre. Mas estou trabalhando no comodato do prédio para depois fazer essas reformas e receber uma das paradas desse trem”, esclarece.

Há 17 anos no município, o prefeito diz que a estação já estava inativa quando adotou Muçum como seu novo lar. “Falta apenas a aprovação do Dnit. Assim que for enviado o acordo de comodato, será feita a revitalização do prédio”, garante.

“Aquele espaço foi invadido, está bastante depredado. Em algumas partes, teremos que refazer tudo: banheiros, ajustes da fiação de luz, pintura das paredes. No momento, não temos uma verba específica para isso, mas vamos trabalhar junto com os deputados para conseguir emendas. Como o prédio está firme a reforma não será tão cara”, acredita.

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